03/02/2010
Educação não rima com exclusão
Por Maria Izabel Azevedo Noronha*
O artigo "Melhores professores na rede", do secretário estadual da
Educação, Paulo Renato Souza ("Tendências/Debates" 28/1), reafirma a
supervalorização dos processos de avaliação como instrumentos de gestão
e melhoria da educação. Quase se pode ler no texto do secretário a
fórmula "avaliação = qualidade". Nada mais distante da realidade da rede
estadual de ensino de São Paulo.
Por meio de medidas como o "provão"
aplicado aos professores temporários e a "promoção por mérito", a
secretaria elegeu a avaliação individual do professor como a grande
saída para a péssima situação das escolas estaduais. Com isso, tenta
jogar o foco dos problemas educacionais sobre o educador. Mas o governo
do PSDB não escapou de críticas generalizadas por ter deixado a situação
chegar ao ponto que chegou.
Com suas ações, o governo trouxe para
o centro do debate educacional a questão da avaliação. Embora a
avaliação seja um instrumento científico necessário para aferir a
correção e a eficácia das políticas educacionais e fundamentar mudanças
de rumos, seus resultados não podem ser mais importantes que o próprio
processo ensino-aprendizagem, em toda a sua riqueza e globalidade.
A educação é processo coletivo, é
trabalho de equipe. Vai além da relação professor-aluno em sala de aula
e dos conhecimentos individuais de cada professor. Não basta, portanto,
uma prova de conhecimentos do professor para que se assegure a qualidade
de ensino. Se o professor não tiver tranquilidade para atuar, se não
forem asseguradas condições estruturais e pedagógicas e jornada de
trabalho adequada, se o projeto político-pedagógico e o currículo não
estiverem de acordo com as necessidades dos alunos e se a carreira não
for atraente e não houver bons salários, as deficiências vão persistir.
As condições acima não estão
presentes na rede estadual de ensino.
Com o provão, o governo quer excluir
professores com anos de experiência na escola pública e substituí-los
por outros, que trabalharão nas mesmas sofríveis condições que os
atuais. São 100 mil professores temporários, muito acima do índice
aceitável, que seria de aproximadamente 10% do total.
A saída para essa anomalia é o
concurso público de provas e títulos, que considere o tempo de serviço,
com bibliografia correta e tempo para que os professores possam se
preparar. Os concursos avaliam a capacidade profissional, mas não têm
sido realizados com a periodicidade necessária.
Realizamos intensa mobilização em
pleno recesso escolar pela mudança do caráter do provão, de eliminatório
para classificatório, e o governo acatou nossa reivindicação -seja por
constatar que faltariam professores, seja por termos demonstrado que a
avaliação foi difícil, com bibliografia muito extensa, muitos títulos
esgotados e apenas um mês para que os professores se preparassem no
final do ano, quando estavam envolvidos em avaliações de alunos,
reuniões de conselhos e, ainda, repondo aulas aos sábados em decorrência
do intervalo imposto pela gripe suína. Ainda assim, mais da metade da
categoria obteve a pontuação exigida.
Se o governo do Estado quer garantir
a qualidade do ensino, deveria começar aplicando a lei federal 11.738/
08, que estabelece o piso salarial profissional nacional, que destina,
no mínimo, um terço da jornada de trabalho do professor para atividades
extraclasses, inclusive para a formação continuada.
A Secretaria da Educação deveria
firmar convênios com universidades públicas para oferecer formação
continuada no próprio local de trabalho, como parte da jornada do
professor. A presença das universidades no interior das escolas teria
repercussão na formação dos professores, aproximando teoria e práticas
pedagógicas.
No entanto, segundo dados do Sigeo
(Sistema de Informações Gerenciais da Execução Orçamentária), o governo
de São Paulo deixou de gastar em 2009 metade da verba destinada à
formação, em programas como Rede do Saber e outros.
Estava previsto gasto de R$ 90
milhões para a formação continuada de educadores, mas, no ano passado,
foram gastos R$ 44 milhões. Portanto, deixou-se de aplicar mais de R$ 46
milhões. O maior corte foi para a formação de professores do ensino
médio, obrigação do governo estadual.
Queremos e lutamos pela qualidade do
ensino. Queremos concursos públicos, mais qualidade na formação inicial,
aperfeiçoamento continuado, carreira, jornada de trabalho adequada,
salários dignos e condições estruturais nas escolas. Por isso, não
aceitamos sermos responsabilizados pelas deficiências da educação
pública no Estado de São Paulo.
*Maria Izabel Azevedo Noronha, 49, professora, é presidenta da
Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São
Paulo) e membro do Conselho Nacional de Educação.