04/08/2009
Sobre diplomas e direitos políticos
Por Adriano Ribeiro Machado*
A derrubada do diploma de
ensino superior para o exercício do jornalismo pelo Supremo Tribunal
Federal (STF), em junho, fez aflorar no meio acadêmico e, principalmente
na grande mídia o velho discurso da necessidade do diploma de nível
superior para o exercício de cargos públicos, mas especificamente para
presidente da República. É curioso o brilho nos olhos de algumas pessoas
na tentativa de desqualificar Luiz Inácio Lula da Silva, um torneiro
mecânico, um operário, que não cursou faculdade alguma: como pode ser
presidente?
É curioso por que os mesmos
proselitistas que rechaçam qualquer possibilidade de um operário ser
presidente, pois um trabalhador braçal seria “ignorante” e “incapaz” de
gerenciar um país como o Brasil – que enchem a boca para dizer que o
presidente fala errado e vive cometendo gafes – são os mesmos que
desconhecem as leis brasileiras e não sabem (como deveriam) que à
Constituição Federal, que serve como bíblia política para todos,
assegura que o Estado brasileiro deve ser isonômico, ou seja, dar iguais
condições de disputas políticas a qualquer cidadão, sendo inaceitáveis
preconceitos de ordem social, étnica, sexista e grau de instrução.
Por exemplo, o artigo 14 da
Constituição, que trata justamente das premissas jurídicas para a
ascensão aos cargos de representação política e versa sobre os direitos
políticos de todos, determina alguns quesitos básicos para os
postulantes ao cargo de presidente da República. Lula, obviamente,
preenche todos estes quesitos, por tanto juridicamente estaria em
consonância com a legislação eleitoral. Mas, existe no Brasil um tipo de
argumento fácil e totalmente incoerente de que pobre não sabe votar, de
que pobre não sabe escolher e de que pobre não sabe e não deve governar.
Se pudessem, as elites organizadas
deste país estabeleceriam que o voto do rico vale dois e do pobre vale
um, ou ainda voltaríamos ao voto censitário, quando apenas quem tinha um
certo poder aquisitivo poderia escolher seus representantes. Isto talvez
explique um pouco do endeusamento das elites ao diploma universitário
como pré-requisito aos candidatos à Presidência da República. A pergunta
que não quer calar é a seguinte: que instituição de ensino no Brasil
oferece curso de como ser presidente da República? Que universidade?
Aliás, que universidade no mundo oferta esta faculdade?
Imagine, hipoteticamente, que o MEC
determine a criação de cursos desta natureza, qual seria o currículo do
curso? Como escolher ministros? Como se relacionar com a mídia? Como
criminalizar os movimentos sociais? E o corpo docente? Poderíamos chamar
ex-presidentes como Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e professor da
Sorbonne, que ensinaria como privatizar empresas estatais com dinheiro
do BNDES, como provocar crise energética e apagão, como endividar o país
até o pescoço e ser refém do capital estrangeiro. Poderíamos chamar o
senador e ex-presidente Fernando Collor para ensinar como um político é
impeachmado e volta à cena política. A duração do curso seria de quatro
anos (como um mandato), com direito a reeleição de mais quatro. A idéia
não é ótima?
É irônico e totalmente paradoxal,
àqueles que defendem a obrigatoriedade do diploma universitário para o
líder do Executivo não conseguem explicar o fato de um presidente
operário ter avançado mais na área da educação do qualquer outro governo
antecessor. É claro que achamos tímidos os avanços, mas foram
importantes para mudar a cara da educação brasileira. Um exemplo disso
são as escolas técnicas que foram esquecidas e jogadas às traças por
FHC. Quando refederalizou as escolas técnicas totalizavam 140 em todo o
país, isto é, em toda a história brasileira foram construídas 140
técnicas – até o fim de 2010, o governo federal, entregará mais 214
escolas técnicas dando um salto para 354 no total.
E o que dizer então do ProUni, talvez
o mais importante programa deste governo, que já colocou mais de 600 mil
estudantes pobres no ensino superior e logo, logo, chegará a um milhão
de beneficiados. A relação entre a falta de diploma do presidente e a
criação de oportunidades para que outras pessoas tenham este mesmo
diploma é direta, ou seja, só quem sofreu e sofre preconceito por não
ter uma faculdade sabe o que isto pode significar para os futuros
profissionais e até futuros políticos deste país. Os doutores e senhores
do saber tiveram seus governos e nada foi tão revolucionário na educação
brasileira do que o ProUni, seguramente.
É uma pena que num Estado Democrático
de Direito, como deveríamos ter, existam pessoas que se acham superiores
as demais pelo simples fato de terem cursado uma faculdade, mesmo
sabendo que o acesso ao ensino superior não é uma escolha que qualquer
um pode fazer, mas uma oportunidade que poucos possuem e não podem
disperdiçar.
*Adriano Ribeiro Machado, jornalista, é membro da Juventude do
Partido dos Trabalhadores e do Movimento Mudança.