09/12/2009
A agenda popular e democrática da
Confecom
Por
Jonas Valente*
No último dia 22, chegou ao fim a
maratona de realização das etapas estaduais da 1ª Conferência Nacional
de Comunicação (Confecom), que envolveu eventos em todas as 27 Unidades
da Federação. Como não puderam votar propostas – limite imposto pela
Resolução Nº 8 da Comissão Organizadora Nacional –, estes eventos
ficaram limitados à eleição de delegados. Escolhidos os representantes
dos três segmentos à etapa nacional, marcada para os dias 14 a 17 de
dezembro em Brasília, as atenções voltam-se agora à discussão sobre o
conteúdo das resoluções que sairão deste evento.
O processo da Conferência não foi
fácil. Desde o seu início, ele foi limitado e restringido por sucessivos
regramentos definidos a partir dos condicionantes e ameaças impostos
pelo empresariado do setor. Isso resultou num privilégio desmedido a
este segmento, sustentado não apenas pelo governo federal, mas como por
parte das entidades da sociedade civil integrantes da Comissão
Organizadora Nacional.
A justificativa destas últimas para
tal posicionamento se apoiava na avaliação que, sem a presença dos três
setores, a Confecom corria riscos de não ser realizada ou fracassaria.
Em uma conclusão nossa a partir deste raciocínio, feitas as concessões
necessárias para que a Confecom fosse assegurada, não haveria mais a
necessidade de limitar a estratégia de construção de uma agenda
democrática e popular para as políticas de comunicação do país.
Independente das avaliações sobre os
caminhos traçados até agora, já debatidas exaustivamente pelos vários
atores envolvidos no processo, há de se reforçar a importância de uma
estratégia no sentido do apontado no parágrafo anterior. A etapa
nacional, depois de um difícil desenrolar, pode colocar a Confecom como
ponto de virada na história das comunicações brasileiras caso consiga
aprovar uma agenda democrática e popular para o setor.
O alcance deste objetivo demanda um
grande esforço por parte das entidades da sociedade civil e dos
movimentos sociais. Em primeiro lugar, para conseguir consensuar uma
plataforma comum a partir do rico conjunto de propostas apresentado por
grupos como o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC),
o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, a Associação
Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço), a Central Única dos
Trabalhadores (CUT), o Conselho Federal de Psicologia (CFP), o Partido
Comunista do Brasil e a Associação Brasileira de Canais Comunitários (Abccom),
além do movimento negro e de mulheres.
Pelos debates realizados nas
conferências estaduais, tal empreitada se mostra viável. É possível
arriscar que há possibilidades de acordo em torno de um novo marco
regulatório calcado em pontos como: (1) a constituição de órgãos
reguladores abertos à participação da sociedade, (2) a forte limitação
da concentração de propriedade dos meios de comunicação, (3) a ampliação
da transparência e da participação da população na concessão e renovação
de outorgas, (4) o fortalecimento da mídia pública e comunitária, (5) a
proteção do contéudo nacional e a instituição de cotas para estimular a
produção regional e independente, (6) a democratização das verbas
oficiais de publicidade, (7) a implantação de mecanismos para coibir a
representação distorcida e desequilibradas de segmentos minorizados e
oprimidos, bem como para ampliar o espaço destes na mídia, e (8) a
promoção, pelo Estado, de uma política que assegure o acesso dos
brasileiros à internet em banda larga.
É preciso ainda ajustar, entre os
diversos atores, as formas concretas que cada uma destas diretrizes
assume. Há ainda idéias diversas sobre a composição dos órgãos
reguladores, a caracterização dos sistemas público, privado e estatal, a
competência de municípios para outorgar autorizações de radiodifusão
comunitária, percentuais e destinatários alternativos da publicidade
governamental, fontes de receita para os mecanismos de financiamento e
forma da universalização do acesso à banda larga. Estes desacordos,
contudo, se mostram mais pontuais do que estruturais, o que abre caminho
para uma extensa e qualificada pauta conjunta. Associa-se ao desafio do
processo de síntese programática a necessidade de assegurar posturas de
construção coletiva e respeito entre o conjunto deste segmento para que
tal empreitada seja bem sucedida.
Indo além dos muros da sociedade
civil, faz-se necessário estabelecer uma interlocução com os
representantes do poder público, em especial com o governo federal,
cujos delegados serão o “fiel da balança”. A tomar pela divulgação das
propostas do Executivo Federal, há brechas importantes para viabilizar
tal movimento. Em diversos pontos, as elaborações do promotor da
Confecom se aproximam desta possível plataforma comum dos movimentos
sociais.
No entanto, para que esta expectativa
se concretize, deve haver disposição tanto por parte dos movimentos
sociais quanto pelo governo federal para enfrentar as já conhecidas
resistências do setor empresarial, que não abre mão dos privilégios
constituídos ao longo da Ditadura Militar e das duas gestões de Fernando
Henrique Cardoso. Não haverá democratização da comunicação no país sem
mexer nas estruturas já consolidadas do setor. Terão, a sociedade e os
dirigentes do Executivo Federal, a oportunidade de iniciar a realização
de uma das principais tarefas históricas ainda não assumidas por este
governo.
*Jonas Valente é jornalista e integrante do Intervozes – Coletivo
Brasil de Comunicação Social, entidade que representa na Comissão
Organizadora da 1ª Conferência Nacional de Comunicação