18/11/2009
Escolas latino-americanas, médicos
do povo para o povo
Por Emir Sader*
Há 10 anos que se estão formando as
primeiras gerações de médicos de origem pobre na América Latina. Não
estão sendo formados pelas excelentes universidades publicas
latinoamericanas, que têm os melhores cursos tradicionais de medicina do
continente. Nem falar das universidades privadas.
Eles estão sendo formados pelas
Escolas Latinoamericanas de Medicina, projeto iniciado há 10 anos em
Cuba e que agora já conta com uma Escola similar na Venezuela e tem
projeto de ampliar-se para países como Bolívia e Equador. São
selecionados estudantes por cotas de movimentos sociais -originários do
movimento camponês, do movimento negro, do movimento sindical, do
movimento indígena e de outros movimentos sociais -, se tornam alunos do
melhor curso de medicina social do mundo e retornam a seus países para
praticar os conhecimentos adquiridos não na medicina privada, mas na
medicina social, pública, nos lugares que os nossos países mais
precisam, sem contar normalmente com os médicos formados nas
universidades tradicionais.
Cuba transformou uma antiga
instalação militar - a Academia Naval Granma - em uma universidade
médica latinoamericana, para que milhares de jovens privados de estudar
medicina nos seus países, possam ter acesso a esse curso em Cuba e
retornem a seus países para atender necessidades que não são
contempladas pela medicina tradicional.
Além da melhor medicina social que se
pode dispor hoje no mundo, os alunos recebem formação histórica sobre o
nosso continente, respeitando-se as convicções - políticas, religiosas -
de cada aluno. "Médicos dispostos a trabalharem onde for preciso, nos
mais remotos cantos do mundo, onde outros não estão dispostos a ir. Esse
é o médico que vai ser formar nesta Escola" - dizia Fidel na inauguração
da Escola.
A primeira turma se formou em 2005.
Formar um médico nos EUA custa não menos de 300 mil dólares. Cuba está
formando atualmente mais de 12 mil médicos para países do Terceiro
Mundo, em uma contribuição inestimável para os povos desses países.
Mesmo passando dificuldades econômicas nas duas últimas décadas, Cuba
não diminuiu nenhuma vaga na Escola Latinoamericana de Medicina - como,
aliás, nenhuma vaga nas escolas cubanas, nem nenhum leito em hospital.
Desde a formação da primeira turma,
em 2005, graduaram-se médicos de 45 países e de cerca de 84 povos
originários. Formaram-se 1496 médicos em 2005, 1419 em 2006, 1545 em
2007, 1500 em 2008, 1296 em 2009. Os três países que tiveram mais
médicos formados na Escola são Honduras, com 569, Guatemala, com 556 e
Haiti, com 543. Atualmente mais de 2 mil alunos estudam na Escola. A
procedência social deles é em sua maioria operários e camponeses. As
religiões predominantes são a católica e a evangélica.
A Escola em Cuba - em uma
cidade contigua a Havana - é integrada por 28 edificações numa área de
mais de um milhão de metros quadrados, onde os estudantes recebem o
curso pré-medico e os dois primeiros anos do curso de medicina, de
ciências básicas. Depois os alunos recebem o "ciclo clínico" nas 13
universidades médicas existentes em Cuba. O corpo geral de professores é
de mais de 12 mil.
O Brasil também já conta com cinco
gerações de médicos, formados na melhor medicina social, sem que possam
exercer a profissão, propiciada pela generosidade de Cuba. Os Colégios
Médicos tem conseguido bloquear esse beneficio extraordinário para o
povo brasileiro, alegando que o currículo em que se formara, não
corresponde exatamente ao das universidades brasileiras - uma forma
corporativa de defender seus privilégios.
As nossas universidades públicas
costumam ter as vagas ocupadas por alunos que se preparam muito melhor
que a grande maioria, por dispor de recursos econômicos que lhes
possibilitam ter formação muito superior às dos outros. Assim, em geral
tem origem na classe média alta e na burguesia, que desfrutam da melhor
formação que as universidades públicas possuem, gratuitamente, sem que a
isso corresponda a contrapartida de exercer medicina social, nas regiões
em que o país mais necessita.
Essas instituições corporativas não
devem se preocupar, as centenas de médicos formados na Escola
Latinoamericana de Medicina não abrirão consultórios nos Jardins de São
Paulo, na zona sul do Rio ou em outras regiões ricas das capitais
brasileiras. Eles irão fazer a medicina social que o Brasil precisa,
atendendo a demandas que não são atendidas pelos médicos formados nas
melhores universidades públicas brasileiras, mas que derivam seus
conhecimentos para atender a clientelas privadas, em condições de pagar
consultas e tratamentos caros.
As negociações para o reconhecimento
dos diplomas dos jovens médicos solidários formados em Cuba estão em
desenvolvimento, com apoio do governo brasileiro, mas ainda não chegaram
a uma solução que permita o aporte dessas primeiras gerações de médicos
brasileiros de origem popular.
* Emir Sader é sociólogo e cientista político