21/12/2009
A grande mídia e a segunda Confecom
Por
Venício Lima*
Concluída a 1ª Conferência Nacional
de Comunicação (Confecom), que aconteceu em Brasília, de 14 a 17 de
dezembro, com a participação de mais de 1.600 delegados,
democraticamente escolhidos em conferências estaduais realizadas nas 27
unidades da federação, representando movimentos sociais, parte dos
empresários de comunicação e telecomunicações e o governo –
independentemente da avaliação de suas deliberações – é hora de tentar
compreender as razões que levaram os principais grupos empresariais
brasileiros de mídia a boicotarem o evento.
O anúncio público da retirada das
seis entidades empresariais da Comissão Organizadora da 1ª Confecom se
deu após reunião realizada entre elas e os ministros das Comunicações,
Hélio Costa, da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins e da
Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Dulci, no dia 13 de agosto. Os
membros da Comissão haviam sido designados em 25 de maio e a primeira
reunião se realizado há pouco mais de dois meses. Estava-se, portanto,
apenas no início de um longo processo.
Uma nota divulgada logo após a
retirada e assinada conjuntamente pela ABERT - Associação Brasileira de
Emissoras de Radio e Televisão; ABRANET - Associação Brasileira de
Internet; ABTA - Associação Brasileira de TV por Assinatura; ADJORI
BRASIL - Associação dos Jornais e Revistas do Interior do Brasil; ANER -
Associação Nacional dos Editores de Revistas e ANJ – Associação Nacional
de Jornais, afirmava, dentre outros pontos, o seguinte:
“Por definição, as entidades
empresariais têm como premissa a defesa dos preceitos constitucionais da
livre iniciativa, da liberdade de expressão, do direito à informação e
da legalidade”.
Observa-se, no entanto, que a
perseverante adesão a estes princípios foi entendida por outros
interlocutores da Comissão Organizadora como um obstáculo a confecção do
regimento interno e do documento-base de convocação das conferências
estaduais, que precedem a nacional.
Deste modo, como as entidades
signatárias não têm interesse algum em impedir sua livre realização,
decidiram se desligar da Comissão Organizadora Nacional, a partir desta
data.
É importante registrar que
permaneceram na Comissão Organizadora duas entidades empresariais: a
ABRA - Associação Brasileira de Radiodifusores, uma dissidência da ABERT
fundada pelas redes Bandeirantes e Rede TV!, em maio de 2005; e a
TELEBRASIL - Associação Brasileira de Telecomunicações, criada em 1974,
que tem como missão “congregar os setores oficial e privado das
telecomunicações brasileiras visando a defesa de seus interesses e o seu
desenvolvimento”.
Controle social e censura - A
realização da Confecom – a última conferência nacional a ser convocada
de todos os setores contemplados pelo “Título VIII - Da Ordem Social” na
Constituição de 88 – sempre encontrou enormes resistências dos grandes
grupos de mídia. Não seria novidade, portanto, que na medida mesma em
que avançassem as difíceis e complexas negociações, e antes mesmo do
desligamento das seis entidades empresariais, surgissem também os
“bordões de combate” à sua concretização, reiterados na narrativa
jornalística (cf. OI n. 550, Controle Social da Mídia – Por que não
discutir o assunto?).
O que foi inicialmente identificado
na nota dos empresários como uma divergência interna em torno dos
“preceitos constitucionais da livre iniciativa, da liberdade de
expressão, do direito à informação e da legalidade” na Comissão
Organizadora, foi aos poucos se transformando em insinuação permanente
de que até mesmo a simples realização da conferência se constituía em
grave ameaça à liberdade de expressão. Seu foco, dizia a grande mídia
nas raríssimas ocasiões em que o tema foi pautado, era o ameaçador
controle social da mídia, isto é, o retorno aos tempos do autoritarismo
através da censura oficial praticada pelo Estado.
No dia de abertura da 1ª Confecom, 14
de dezembro, o Jornal Nacional da Rede Globo, que até então silenciara
sobre sua realização, deu uma nota que exemplifica a postura da grande
mídia: questiona a representatividade do evento e insinua que seu foco
seria o controle social da mídia, equacionado sem mais com a censura que
cerceia a liberdade de expressão e o direito à informação. Vale
conferir:
APRESENTADORA FÁTIMA BERNARDES:
Começou hoje, em Brasília, a primeira Conferência Nacional de
Comunicação, que pretende debater propostas sobre a produção e
distribuição de informações jornalísticas e culturais no país. Entre as
propostas estão o controle social da mídia por meio de conselhos de
comunicação e uma nova lei de imprensa. O fórum foi convocado pelo
Governo Federal e conta com 1.684 delegados, 40% vindos da sociedade
civil, 40% do empresariado e 20% do poder público.
APRESENTADOR WILLIAM BONNER:
Mas a representatividade da conferência ficou comprometida sem a
participação dos principais veículos de comunicação do Brasil. Há quatro
meses, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, a
Associação Brasileira de Internet, a Associação Brasileira de TV por
Assinatura, a Associação dos Jornais e Revistas do Interior do Brasil, a
Associação Nacional dos Editores de Revistas e a Associação Nacional de
Jornais divulgaram uma nota conjunta em que expõem os motivos de terem
decidido não participar da conferência.
Todos consideraram as propostas de
estabelecer um controle social da mídia uma forma de censurar os órgãos
de imprensa, cerceando a liberdade de expressão, o direito à informação
e a livre iniciativa, todos previstos na Constituição. Os organizadores
negam que a intenção seja cercear direitos. A conferência foi aberta com
a participação do presidente Lula.
A reclamação do presidente e a resposta dos empresários
Na abertura da 1ª Confecom o
presidente Lula fez uma queixa pública em relação à ausência das
entidades empresarias e manifestou desconhecer as razões que teriam
levado a tal comportamento. Disse ele:
Lamento que alguns atores da área da
comunicação tenham preferido se ausentar desta Conferência, temendo
sabe-se lá o quê. Perderam uma ótima oportunidade para conversar,
defender suas idéias, lançar pontes e derrubar muros. Eu, que sou um
homem de conversa e de diálogo, volto a dizer: lamento. Mas cada um é
dono de suas decisões e sabe onde lhe aperta o calo. Bola pra frente, e
vamos tocar nossa Conferência.
Dois dias depois, matéria publicada
no jornal O Estado de São Paulo ouviu representantes de duas das seis
associações que se retiraram da Confecom sobre a reclamação do
presidente e sobre quais teriam sido as razões da retirada. Eles
insistem em que o problema foi a ameaça do controle social da mídia.
Roberto Muylaert, presidente da ANER, afirmou:
"Não temos nada contra os movimentos sociais, mas os representantes das
empresas ficaram em minoria, em grande desvantagem”.
“Um controle (social da mídia) pressupõe uma mudança da Constituição,
que atualmente assegura a livre-iniciativa".
Já Miguel Ângelo Gobbi, presidente da Adjori-Brasil disse:
"Queríamos ter voz ativa, mas éramos voto vencido" (...) (participamos)
"de quase 45 horas de reuniões sem conseguir avançar".
"Controle social da mídia é algo que arrepia todo mundo".
Lições para o futuro - No
nosso país, não há tradição de debate democrático entre os atores
dominantes (governo e grupos privados de mídia) e a sociedade civil na
definição das políticas públicas do setor de comunicações. Em outras
ocasiões, tenho chamado de “não-atores” os movimentos sociais que lutam
historicamente pela democratização da comunicação.
O processo constituinte de 1987/88
talvez tenha sido o exemplo mais acabado de como os atores dominantes
conseguem articular e fazer prevalecer seus interesses ignorando as
reivindicações da sociedade civil ou fazendo concessões aparentes que se
transformam em letra morta, simplesmente porque não regulamentadas pelo
Legislativo.
A incapacidade crônica de se avançar
em relação, por exemplo, à regulação das rádios e televisões
comunitárias e a lamentável situação do Conselho de Comunicação Social
falam por si só (cf. OI 565, CCS: Três anos de ilegalidade).
Por tudo isso, a 1ª. Confecom é a
realização de uma reivindicação histórica dos movimentos sociais e
constitui um avanço democrático com o qual os grupos privados de mídia,
atores historicamente dominantes no setor, não souberam lidar. Apesar de
interessar a todos os atores um marco regulatório atualizado para as
comunicações, os empresários privados parecem acreditar que as políticas
públicas continuarão sendo indefinidamente estabelecidas com a exclusão
da cidadania. Não só porque, de outra forma, seus interesses correriam
riscos, mas também porque não estão acostumados a negociar com a
sociedade civil, a levar em conta o interesse público que se manifesta
de forma organizada e, sobretudo, democrática.
Não é difícil compreender, portanto,
porque, mesmo afirmando que sua retirada da Comissão Organizadora “não
(impediria) que os associados decidam, individualmente, qual será sua
forma de participação - uma demonstração cabal de nosso ânimo agregador
e construtivo em relação a este evento” a grande mídia tenha
sistematicamente insinuado – apesar de saber, por óbvio, que as
conferências são fóruns propositivos e não deliberativos – que a ameaça
da 1ª. Confecom era a restauração da censura através de um controle
social da mídia definido à priori como autoritário.
Está com razão o presidente Lula ao conclamar na abertura da 1ª.
Confecom:
O País precisa travar um debate
franco e aberto sobre a comunicação social. Não será enfiando a cabeça
na areia, como avestruz, que enfrentaremos o problema. Não será tampouco
fechando os olhos para o futuro ou pretendendo congelar o passado que
lidaremos corretamente com a nova situação.
Isso vale para todos nós: governo,
empresas de comunicação e de telecomunicações, trabalhadores, movimentos
sociais, leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.
É chegada a hora de uma nova
pactuação na área da comunicação social que resgate os acertos do
passado, mas também corrija seus erros, e seja capaz de responder às
enormes interrogações e às extraordinárias oportunidades que temos
diante de nós.
Espera-se que as seis entidades
empresariais que se retiraram da Comissão Organizadora da 1ª. Confecom,
sempre tão zelosas na defesa da liberdade de expressão e da democracia,
revejam suas posições e participem ativamente da organização e dos
debates da 2ª. Confecom.
*Venício Lima é professor-pesquisador Sênior do Núcleo de Estudos
sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília - NEMP - UNB