22/02/2010
O ódio da mídia e a primeira
vitória de Lula
Por Gilson Caroni Filho*
Se a deontologia do jornalismo não contempla a divulgação de matérias
partidarizadas como se fossem notícias apuradas em nome do
leitor/telespectador, o telejornalismo brasileiro, principalmente o da
Rede Globo, anda precisando redefinir qual é a natureza do seu
verdadeiro ofício. Que fato objetivo deflagra tanta empulhação em
horário nobre? Que registro simbólico almeja sua busca de sentidos? Qual
a necessidade de construção permanente de imagens desfavoráveis ao
governo e, em especial, ao presidente da República? Enganam-se os que
pensam que as respostas a essas questões residem apenas nas próximas
eleições. Lula, por seu significado histórico, representa uma fratura
bem mais profunda do que pode parecer à primeira vista.
Ao obter mais de 30 milhões de votos
em 1989, o ex-líder sindical apareceu como condensação das forças
sociais que se voltavam para a demolição tardia do antigo regime.
Contrariando prognósticos de conceituados analistas, sua candidatura
teve gás suficiente para enfrentar as máquinas partidárias de velhos
caciques. Mesmo derrotado por Collor, que representava a reprodução do
passado no presente, o desempenho de Lula prenunciou, de forma
categórica, o fim de uma “democracia” que só era possível mediante pacto
de compromisso entre as velhas elites políticas, civis e militares. Essa
foi sua primeira vitória. E a mídia disso se deu conta.
O embrião de um novo espaço
histórico, capaz de conferir peso e voz aos de baixo na sociedade civil,
na cultura e no arcabouço estatal, estava lançado. Com uma indiscutível
capacidade de antecipação histórica, a família Marinho, que construiu
seu colosso midiático como um Estado dentro do Estado – e muitas vezes
acima dele – pressentiu o ocaso dos dias gloriosos. Como principal
aparelho de legitimação da ditadura militar, a Globo sempre vislumbrou a
democracia como processo fatal à sua supremacia. E essa era uma
avaliação correta. Deter o movimento profundo que vinha das urnas seria
impossível.
A centralidade de Lula e do Partido
dos Trabalhadores no cenário político era o avanço do cidadão negado,
desde sempre, em sua cidadania. A construção da nova história
objetivaria também o significado das eleições seguintes. Até a vitória
em 2002, o acúmulo de forças trouxe à cena as esperanças políticas das
classes excluídas. O rosto sofrido, que se contrapunha tanto à estética
das modernizações conservadoras quanto à ética do neoliberalismo
rentista, já não temia as bravatas e espertezas do adversário.
O rancor da mídia corporativa tem que
ser contemplado como pano de fundo de uma grande derrota. Suas ameaças
só não são trágicas porque, ao arreganhar os dentes, a grande imprensa
introduz notas burlescas no discurso que se pretendia ameaçador. O
diagnóstico que denuncia o fim da festa sai, ainda que codificado, dos
débeis sustentáculos da credibilidade que lhe sobrou junto a setores
protofascistas da classe média.
Ao criminalizar movimentos sociais,
criticar a política externa tentando estabelecer paralelos entre Caracas
e Tegucigalpa, e censurar premiações internacionais recebidas pelo
presidente, o jornalismo produzido vai desenovelando a história da
imprensa brasileira com impecável técnica televisiva.
Resta-lhe o apoio de uma direita sem
projeto, voraz, cínica e debochada. Esse é o único troféu que ostenta em
2010, após ter sofrido o baque inaugural há 21 anos. Na década de 80,
ainda valia editar debates e fazer uso político de sequestro de
empresários. Afinal, não seria por apoio governamental que conferências
debateriam monopólio e manipulação midiática.
Em outubro, o monopólio não estará
apostando apenas na candidatura de José Serra. Buscará, mediante
retrocessos de toda ordem, garantir a sobrevida de uma ordem informativa
excludente, incompatível com as regras mais elementares do Estado
democrático de direito.
*Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades
Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta
Maior e colaborador do Jornal do Brasil