27/01/2010
Um passo à frente, dois passos
atrás*
Companheiros e amigos,
Sabemos que existe uma diferença
fundamental entre a abordagem política e as abordagens moral, religiosa
ou jurídica dos fatos. Enquanto estas só admitem caminhar para a frente,
em marcha batida, a primeira procura dar conta das leis da vida, a
partir da premissa de que política é correlação de forças, a arte de
avançar em combate, numa relação dialética com o adversário ou inimigo.
Às vezes é preciso recordar o óbvio para não se alienar do sentido da
história. A análise e a prática políticas dependem da correta
identificação das forças em confronto, sem perder de vista as
possibilidades abertas e os limites impostos pela conjuntura, para
evitar a armadilha da esfera estritamente ideológica, enquanto imagem
invertida da realidade.
Somos socialistas do Século XXI,
democratas sem pejo de se proclamar radicais, adversários de quaisquer
muros à livre formação da consciência. E é desse ponto de vista que
interpretamos e nos pronunciamos sobre o decreto presidencial de
13/1/2010 que institui a Comissão Nacional da Verdade.
O problema é o seguinte: a conjuntura
política mudou com o decreto que dá nova redação à diretriz 23 do
Decreto 7.037, de 21 de dezembro de 2009. Para alguns companheiros e
entidades, ainda sujeitos à lógica paralisante da metade do século
passado, entretanto, a mudança teria sido para pior, mediante uma
virtual capitulação a pressões golpistas. Segundo essa interpretação
equivocada, a alteração do terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH)
teria como objetivo principal não a apuração das torturas, assassinatos
e desaparecimentos, mas a punição, pela segunda vez, das vítimas da
ditadura. Tememos que esse raciocínio se paute por uma lógica alucinada,
como costuma ser a dos apressados e principistas. Vamos direto ao
assunto e falar de dois pontos que para nós, Inquietos da LS-21, são
essenciais e constituem o cerne da questão.
PRIMEIRO PONTO: Comparemos a
realidade político-jurídica de 20/12/2009 e a de 14/1/2010. Vinte e
cinco dias são a distância entre duas conjunturas.
Antes estávamos no mesmo patamar de
22 anos atrás: como em 1988, os arquivos da ditadura continuavam
sumidos, os destinos dos companheiros desaparecidos envoltos em brumas,
a anistia era considerada como perdão recíproco e os torturadores
andavam livres por aí publicando sites, blogs e bravatas. Enquanto isso
o pau de arara continuava com fila de espera nas delegacias e presos
comuns seguiam submetidos às mesmas humilhações e suplícios. Neste
início de 2010, embora as sensações cotidianas pareçam inalteradas, bem
ou mal temos um decreto assinado pelo Presidente da República, pactuado
com o Ministro da Defesa e os comandantes militares, criando um Grupo de
Trabalho que tem o prazo-limite de abril próximo para apresentar a
minuta de um projeto de lei instituindo a Comissão Nacional da Verdade.
O Grupo de Trabalho será presidido pela Casa Civil, ou seja, passou a
ser coordenada pelo próprio Presidente via ministra Dilma Rousseff,
virtual candidata a Presidente da República e crítica notória da fase de
nossa história em que a tortura consistia no principal método de
governo. O GT será integrado por seis membros: um deles do Ministério da
Defesa e cinco interessados, em tese, numa verdadeira Comissão da
Verdade. Dito de outra forma, o GT contará em princípio com a direção
moral e intelectual de membros das sociedades política e civil.
No final de dezembro não tínhamos
nada. No ano novo temos um GT que produzirá um Projeto de Lei até abril,
com uma composição que é amplamente favorável à verdade histórica. Sem
contar que a verdade tem uma força que lhe é própria, imanente,
independente de maiorias ou minorias. A diferença é da água para o
vinho... É certo que houve um recuo semântico, de apuração dos crimes da
repressão para apuração da verdade nos conflitos políticos.Mas isso não
é o mais importante! De que adiantaria obter uma vitória semântica e
sofrer uma derrota política que perpetuasse o imobilismo? Talvez tenha
havido um recuo do ponto de vista estritamente normativo, mas, do ponto
de vista político, tivemos inegavelmente um avanço. Não reconhecer isso
pode ser um grave equívoco.
SEGUNDO PONTO: A interpretação
errônea dada à mudança semântica é que os perseguidos do passado seriam
recolocados novamente no banco dos réus. Essa análise equivale a tomar a
sombra pela árvore, a árvore pela floresta e o detalhe pelo conjunto. Em
primeiro lugar, é preciso reafirmar que os perseguidos pela ditadura
militar não têm armários e nenhum deles coleciona esqueletos. Logo, não
tememos a verdade. Os segredos da chamada esquerda política foram
extraídos dela pela força e toda sua trajetória foi esmiuçada em
processos ilegítimos; milhares de militantes foram condenados em
tribunais de exceção e centenas executados ou exilados sem o direito a
um processo legal. Após a redemocratização, por amor à transparência e à
verdade histórica, mesmo os raros aspectos preservados da sanha
repressiva, foram espontaneamente relatados pelos próprios protagonistas
em centenas de entrevistas a especialistas, documentários e livros
biográficos. Em segundo lugar, não há como apurar os crimes da repressão
sem que eles tragam de volta também a história de suas vítimas, as cenas
dos interrogatórios, os dados fornecidos sob tortura e os relatados por
agentes infiltrados. Para ficar claro: não há como projetar luz sobre os
métodos da repressão e manter no escuro o histórico das oposições, como
tratar da tortura desconsiderando sua finalidade, seus resultados e
conseqüências.
Se a história das oposições é
transparente, a que permanece oculta é a dos porões e dos altos escalões
da ditadura. Permanecem longe das vistas das autoridades até os próprios
arquivos do regime que infelicitou a nação entre 1964 e 1985. Onde estão
as ordens e decretos secretos? Como era a linha de comando do regime
militar? De que forma eram tomadas as decisões mais sinistras, como elas
eram cumpridas por subalternos sem escrúpulos? Tudo isso foi descrito
pela burocracia. O que não foi registrado pode ser revelado por
funcionários se, sobre eles, deixarem de ter força as ameaças explícitas
e veladas dos mandantes. É preciso tornar públicas as ordens do dia dos
quartéis, os boletins e os registros carcerários das unidades militares,
os decretos, portarias, ofícios, os quadros de pessoas lotadas em cada
unidade dos DOI-CODI e suas respectivas funções. É importante não
esquecer as atas das entidades empresariais, os nomes dos grupos e
indivíduos que financiavam os esquemas indiscriminados de terror.
É necessário, ainda, apurar quem
produzia os *press-rele*ases dos DOI-CODIs e quem, nos jornais, os
recebia e ordenava que fossem publicados!
Uma Comissão da Verdade baseada no
princípio do contraditório deve ser válida para todos os lados - e não
poderia ser diferente. Em termos políticos ela trará à luz o que
permanece escondido e segue estritamente protegido pelos próprios
criminosos! E histórica e juridicamente é isso que importa.
Concluímos alertando fraternalmente
os companheiros e amigos de que os dois pequenos passos atrás
representam, em nossa interpretação, um gigantesco passo à frente. Pela
primeira vez estamos efetivamente caminhando para a implantação da
Comissão Nacional da Verdade.
Seu conteúdo ainda é uma questão em
aberto, que pode variar conforme a correlação de forças. Não considerar
isso pode levar à perda de aliados, ao alveja mento de companheiros com
"fogo amigo" e a não nos organizarmos à altura para conferir o conteúdo
que a Comissão da Verdade pode e precisa ter.
Resumindo, é preciso reconhecer que a
luta se coloca hoje num outro patamar, acima e diferente do patamar em
que se encontrava anteriormente. Dado o avanço conquistado, as respostas
antigas estão superadas e já fazem parte da História. O que para nós,
Inquietos, se recoloca agora é, novamente, a eterna pergunta que não
quer calar: O QUE FAZER?
São Paulo, janeiro de 2010.
LIGA DE SOCIALISTAS DO SÉCULO XXI - LS-21
(Inquietos@grupos.com.br)
*Mensagem da Liga de Socialistas do Século XXI ao Movimento Nacional de
Direitos Humanos, seções do Tortura Nunca Mais, ONGS, movimentos
sociais, ex-presos e perseguidos políticos, familiares e amigos de
desaparecidos, parlamentares de todo o país, magistrados, procuradores,
oficiais da ativa das Forças Armadas, jornalistas e demais membros da
sociedade civil.