27/07/2009
''A ficha está caindo''
Por Venício Lima*
Um dos maiores obstáculos -
talvez o maior - à democratização das comunicações no Brasil tem sido a
dificuldade histórica de grande parte da população em compreender a
mídia como um poder e a comunicação como um direito. Estão aí incluídos
amplos setores da sociedade civil organizada, inclusive, partidos
políticos e organizações sindicais.
Enquanto as velhas oligarquias
políticas e os grupos empresariais dominantes se tornaram os
controladores das concessões públicas de radiodifusão e usaram este
poder na articulação e defesa de seus interesses, a comunicação
sindical, por exemplo, se consumia em disputas internas e ignorava o
enorme potencial estratégico de construção unificada de uma mídia
alternativa que buscasse romper a assimetria antidemocrática que
historicamente tem constituído nosso espaço público.
Retomo essa obviedade para constatar
que uma série de fatores está provocando a mudança dessa realidade em
nosso país.
Fatores de mudança - Pelo
menos três fatores, dois estruturais e um conjuntural, merecem ser
lembrados. O primeiro, certamente, é o crescimento - incontrolável,
surpreendente e contraditório - da inclusão digital. Os dados do último
relatório anual do Comitê Gestor da Internet, divulgado no final do mês
de maio, revelam que cerca de 60 milhões de brasileiros, vale dizer, um
terço de nossa população, já acessam a internet. E mais: o perfil
predominante deste usuário se desloca das classes A e B para as classes
C e D, isto é, para domicílios com renda entre três e cinco salários
mínimos. Esse imenso contingente bate recordes mundiais mensais de tempo
de navegação e de participação em redes sociais virtuais.
Um segundo fator é o sucesso da
imprensa ''popular'' e regional. Ao contrário da grande mídia impressa
tradicional, ela dá sinais impressionantes de vitalidade que, inclusive,
justificam a importante reorientação na aplicação das verbas de
publicidade oficial que vem sendo executada pela Secom e que tanto tem
irritado os velhos ''donos da mídia''.
O terceiro fator é a realização da 1ª
Confecom (Conferência Nacional de Comunicação), em dezembro próximo.
Mesmo que ela venha a ocorrer sob o domínio dos velhos e ainda poderosos
atores dominantes no setor de radiodifusão e de seus aliados no
Congresso Nacional e no próprio governo, sua convocação tornou
obrigatório o debate sobre a mídia e a importância estratégica da
comunicação.
Ressonância na sociedade civil
- Esses fatores têm provocado uma ressonância importante na sociedade
civil. Depois de muitos anos, o campo sindical se deu conta de seu
potencial comunicativo e iniciativas como a Rede Brasil Atual - uma
revista, um portal de notícias e um programa de rádio - já são
realidade. Portais alternativos de informação e análise se firmam no já
concorrido ciberespaço. Um bom exemplo é o Portal Vermelho que bate
sucessivos recordes de acesso. Várias outras iniciativas locais e
regionais desse tipo estão em andamento.
''Pipocam'' debates sobre a mídia e
seu papel por todo país. Partidos políticos, importantes setores
sindicais e as mais diversas entidades da sociedade civil organizada se
preparam para participar - direta ou indiretamente - da 1ª Confecom. A
polarização de interesses que já se revela claramente nas reuniões de
sua Comissão Organizadora tem sido objeto de discussão em vários
encontros e seminários.
Mídia como poder e comunicação
como direito - Tudo isso significa que finalmente a comunicação está
se transformando em objeto de discussão, isto é, está entrando na agenda
pública, algo que a grande mídia sempre tentou boicotar em nosso país.
Como poder singular que é, a mídia - e todos os outros poderes na
democracia - precisa e deve ser regulada e estar sujeita à fiscalização
em nome do interesse público. É assim que funciona nas principais
democracias do planeta e é assim que deve funcionar aqui também. E isso,
não há dúvida, só será possível quando a maioria da sociedade
compreender a mídia como um poder e a comunicação como um direito.
*Venicio A. de Lima – é professor, pesquisador sênior do Núcleo
de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília e
autor/organizador de ''A mídia nas eleições de 2006'', Editora Fundação
Perseu Abramo - 2007. Publicado originalmente no Observatório da
Imprensa