28/09/2009
Imprensa brasileira: De facto ou
interina?
Por Gilson Caroni Filho*
Desde 28 de junho, quando o
presidente Manuel Zelaya foi deposto por um golpe militar liderado por
Roberto Micheletti, a grande imprensa brasileira, através de seus
articulistas mais conhecidos e dedicados editorialistas, voltou a
apresentar, como é comum a aparelhos privados de hegemonia, seu vasto
arsenal de produção e redefinição de significados. Desta vez, a novidade
foi o deslocamento semântico do real sentido do que vem a ser golpe de
Estado. Em Honduras, segundo a narrativa jornalística, não há golpistas,
mas "governo interino" ou "de facto", pouco importando que a ação
militar tenha sido condenada pela União Européia e governos
latino-americanos representados pela Organização dos Estados Americanos
(OEA).
Como já tive oportunidade de destacar
em outra oportunidade "há algo profundo no jogo das palavras". Ainda
mais quando, quem as maneja, tem, por dever de ofício, que relatar o que
cobre com precisão e clareza. Fica evidente que razão cínica e ética
ambíguas são irmãs siamesas. E no jornalismo brasileiro, mudam as
gerações, mas as tragédias continuam e o imaginário dos aquários insiste
em se engalfinhar contra as evidências factuais.
Agora, empenhada em afirmar que o
governo brasileiro teria agido de maneira irresponsável ao conceder
abrigo ao presidente deposto, a mídia corporativa repete um velho
procedimento. Tenta armar, na produção noticiosa, uma subversão
monstruosa: a autoria e a responsabilidade do golpe são transferidas aos
que a ele se opõem, de modo que os golpistas, posando de impolutos
democratas, ainda encontrem razões e argumentos para desmoralizar,
reprimir e, se possível, eliminar seus oponentes. Para a empreitada
foram convocados até diplomatas aposentados, saudosos de uma
subalternidade quase colonial.
Uma característica saliente do
discurso editorial, e de forma alguma sem importância, é o tom mordaz de
quem que se propõe a dizer "verdades" a leitores e/ou telespectadores
não apenas iludidos, mas idealizados como obtusos. O trecho abaixo,
extraído da revista Veja (edição 2132, de 30/09/2009) é exemplar.
Trata-se da reportagem “O pesadelo é nosso", assinada pelos jornalistas
Otávio Cabral e Duda Teixeira.
"Com as eleições marcadas para o
próximo dia 29 de novembro, o governo interino que derrubou Zelaya se
preparava para reconduzir o país à normalidade democrática. O candidato
ligado a Manuel Zelaya aparecia até bem colocado nas pesquisas de
intenção de voto. Seria uma saída rápida e democrática para um golpe,
coisa inédita na América Latina. Seria. Agora o desfecho da crise é
imprevisível. O mais lógico seria deixar o retornado sob os cuidados dos
amigos brasileiros até depois das eleições, que, se legítimas,
convenceriam a comunidade internacional das intenções democráticas dos
golpistas".
Não procurem lógica no texto. Muito
menos o uso político do mito da objetividade jornalística. O
panfletarismo é prepotente e assumidamente faccioso para se preocupar
com detalhes. Falar em “intenções democráticas dos golpistas" não
expressa dificuldade de ordem racional, mas uma formidável comédia de
erros e imposturas orquestradas por setores decisivos de uma direita
inconformada com uma política externa exitosa.
Não se trata apenas da insistência da
grande mídia brasileira em “manter um viés anti-Lula, fazendo uma
cobertura parcial e tendenciosa sobre os acontecimentos que envolvem o
fato", como afirmou o deputado José Genoíno. A operação em curso vai bem
além desse propósito. O que ela busca ocultar são os resultados da
reunião do G-20, em Pittsburgh, com a abertura para a reorganização das
instituições financeiras internacionais e maiores direitos para os
países emergentes. O êxito diplomático deve ser substituído por uma
"trapalhada ideológica que não faz jus à tradição pragmática do
Itamaraty”.
É exatamente isso o que confessa o
articulista Clóvis Rossi, em sua coluna de sexta-feira, 25 de setembro,
na Folha de S. Paulo.
"Escrevendo textos no lobby do Hotel
Sheraton, em que Luiz Inácio Lula da Silva está hospedado em Pittsburgh,
sou agradavelmente interrompido por Gilberto Scofield, o competente
correspondente de "O Globo" em Washington: Cara, Honduras conseguiu
eclipsar completamente o G20 nos jornais brasileiros. Só recebo
cobranças sobre Honduras".
Essa desenvoltura de militantes
eufóricos só reforça o que se sabe da grande imprensa. Mudam-se os
tempos, mudam-se as vontades, mas os modelos - teimosos - permanecem
como farsa de um jornalismo que não se sabe ao certo se é “de facto" ou
interino. Os acontecimentos de Tegucigalpa são contagiantes
*Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades
Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro.