29/01/2010
FSM: trincheira de ideias na luta
pela Humanidade
Por Rosane Bertotti*
Fruto do avanço da luta popular, o Fórum Social Mundial completa 10 anos
numa situação muito diferente daquela vivida nos tempos em que o avanço
da globalização neoliberal e do privatismo aprofundavam o arrocho
salarial, a precarização de direitos e o desemprego, no Brasil e em todo
continente americano. Tempos em que os apóstolos do deus mercado diziam
que a história havia acabado e que, a partir de então, só restava aos
lutadores sociais a resignação.
Felizmente, o FSM surgiu como
expressão dos que recusaram o convite à capitulação política, ideológica
e moral e, sob uma saraivada de balas e bombas, levantaram a bandeira de
que um outro mundo era mais do que possível, necessário. Foi dessa
forma, contra vento e maré, que se passou a mobilizar e conformar um
campo de lutadores e lutadoras nas mais diferentes e distantes
trincheiras. Trincheiras de idéias que, como disse José Marti, valem
mais do que trincheiras de pedras. E, na força do exemplo, da
determinação e da coerência, fomos avançando e construindo nosso bloco
para a disputa de hegemonia. Agora é o momento de radicalizarmos este
movimento, indo mais fundo na consolidação de propostas e alianças para
efetivá-las.
Hoje temos governos democráticos e
populares que, em maior ou menor grau, expressam a insatisfação com
aquele surrado receituário do Fundo Monetário Internacional e do Banco
Mundial de desmonte do Estado, desnacionalização e desregulamentação
financeira que engendraram e alimentaram a crise ao repassar parcelas
cada vez maiores da riqueza nacional à meia dúzia de famílias.
Ainda que com evidentes limitações,
iniciamos a virar aquela página. A passagem da fase de protesto à da
proposta começa a se dar com o fortalecimento dos estados nacionais e da
integração regional, com a prioridade ao mercado interno, com a garantia
de direitos sociais e trabalhistas, com a valorização do trabalho,
iniciativas que vêm se conformando como obstáculos reais à onda
devastadora da crise soprada desde os países capitalistas centrais. O
investimento na integração regional, no fortalecimento do Mercosul, e na
ampliação das parcerias com os países africanos reforça a visão e a
prática da soberania, da independência.
Como apontam os acontecimentos, esta
é uma crise econômica, política, social e cultural que coloca em xeque a
ditadura praticada por mega-corporações bancárias e transnacionais, que
controlam e concentram riqueza, poder e privilégios. A insensatez está
evidenciada pelos gigantescos patrimônios que superam o de muitas
nações, e que se sustentam pelo poder das armas, do capital e dos (seus)
meios de comunicação. Esta é a expressão mais cabal do imperialismo, da
sua sanha concentradora, monopolista, belicista, destruidora de países e
povos, como já havia apontado Lenin na virada do século passado.
É uma guerra, travada diariamente,
numa invasão que vai além dos exércitos militares convencionais, que
ocupam o Iraque, o Afeganistão e o Haiti, ou que mantêm sob cerco a
Palestina e ganha cada vez mais peso na economia e nas comunicações,
tentando corromper, comprar, vender e alienar.
No plano econômico, um exemplo
gritante são as recentes desvalorizações do dólar, com emissões de papel
moeda sem qualquer lastro pelo governo norte-americano, ações que têm
servido apenas e tão somente para expandir a sucção parasitária das
nossas economias pelo capital especulativo daquele país. Prova disso é
que entre janeiro e outubro de 2009, quando o dólar “desvalorizou-se”
37% em relação ao real – o que, entre outras coisas, significou o
encarecimento dos produtos brasileiros em relação aos estrangeiros - as
nossas exportações para os Estados Unidos despencaram 45,1%, comparadas
ao mesmo período do ano anterior. “É uma escandalosa política, na qual
os EUA estão tentando fazer o resto do mundo pagar a conta da crise e
exportando desemprego... Isso é uma imensa transferência de riqueza do
resto do mundo para os bancos norte-americanos recomporem seus
balanços”, reconheceu o editor da revista de economia do Banco Mundial,
Yoshiaki Nakano. E acrescentou: “A verdade é que os EUA desencadearam
uma guerra cambial dissimulada com sua política monetária escandalosa de
juro zero e de emissão de dólares, inundando as economias emergentes,
adquirindo ativos, inflando as Bolsas e apreciando suas moedas”.
Na área comunicacional, os negócios
da indústria do entretenimento somam mais de US$ 1,5 trilhão, sendo US$
260 bilhões só nos EUA, com um estreito vínculo entre a indústria bélica
e os interesses nacionais norte-americanos. Assim, para uma boa parcela
da população bombardeada diariamente com desinformação e manipulação,
torna-se natural que rambos e generosos agentes da CIA enfrentem
vietnamitas torturadores, palestinos terroristas, cubanos traficantes e
outras invencionices. Como a batalha da mídia virou uma guerra de
posições, como já nos alertava Gramsci, não se dá bem quem entrega a
própria trincheira ao inimigo.
No caso do Programa Nacional dos
Direitos Humanos, assim como nas campanhas orquestradas contra a
Conferência Nacional de Comunicação e contra a anulação do leilão de
privatização da Companhia Vale do Rio Doce, os meios de comunicação
negaram e continuam negando espaço ao contraditório em emissoras de
rádio e televisão que são concessões públicas. Da mesma forma que nas
recentes declarações preconceituosas de Boris Casoy, que permanecem
impunes. A questão é gravíssima, pois é o interesse do povo brasileiro
que está sendo desconsiderado, apagado e mutilado: nossa cultura, nossas
raízes, nossa música, nossos desenhos, nossos heróis, nossos valores,
nossa auto-estima, a forma como nos vemos e vemos aos outros... E ainda
pior, tentam desqualificar como censura as propostas de democratização.
Como já nos alertou Marx, os meios
"recolhem, produzem e distribuem conhecimento e ideologia”. Daí a
necessidade da democratização da comunicação. Ainda mais quando os
mesmos que controlam os meios eletrônicos são também donos de jornais e
revistas, conformando uma propriedade cruzada que atenta contra a
própria Constituição, reforçando a multiplicação de versões como
verdades. A natureza escusa destes negócios explica o medo pânico dos
atuais barões da mídia com os novos tempos.
Sendo palco da disputa estratégica
entre o velho e o novo, entre o avanço e o retrocesso, entre o futuro e
o passado, a comunicação tem papel fundamental na construção da
hegemonia, na consolidação de valores, no tamanho do horizonte a ser
brindado às gerações. Daí as razões da Constituição Federal afirmar que
os meios de comunicação não podem ser objeto de monopólio ou oligopólio
e prever mecanismos de defesa frente a programações que atentem contra
os direitos humanos, proibir a concentração abusiva, garantir espaço
para a produção regional e independente e ainda estabelecer a
complementaridade entre os sistemas público, privado e estatal.
Apesar de reconhecer a natureza
pública do setor e a sua importância vital para a nação, passadas duas
décadas os principais artigos da Constituição ainda não saíram do papel
e continuam sendo alvo dos latifundiários midiáticos, que qualificam o
controle social de “censura” e qualquer mecanismo público que discipline
a sua bandalheira como “autoritarismo”.
Nunca a Humanidade esteve sob o tacão
de ameaças tão reais à sua sobrevivência, como evidenciam a contaminação
ambiental, o câmbio climático e o genocídio provocado por armas cada vez
mais mortíferas, ao mesmo tempo em que jamais reuniu melhores condições
para superar estes entraves e construir uma cultura de paz e harmonia,
de justiça e solidariedade.
A ação do movimento social,
potencializada por este Fórum, tem a responsabilidade de impulsionar com
sua energia, consistência e coerência à caminhada pela libertação, ao
lado dos governos progressistas, acumulando força e consciência para
enfrentar este desafio e seguir em frente.
Daí a necessidade de construirmos
instrumentos contra-hegemônicos, pautando o debate com a nossa visão,
enfrentando a política preconceituosa dos donos da mídia, de
criminalização dos movimentos sociais, de invisibilização de projetos e
ações que apontam para a transformação, consolidando os alicerces da
nova sociedade.
“Fé na vida, fé no homem, fé no que virá! Nós podemos tudo, nós podemos
mais, vamos lá fazer o que será”.
*Rosane Bertotti é secretária nacional de Comunicação da CUT.