30/11/2009
A paz desejável
Por Marco Aurélio
Garcia*
No Espaço de duas semanas, o Brasil
recebeu as visitas dos presidentes de Israel, da Autoridade Palestina e
do Irã. Não é ocasional a presença em nosso país de três atores-chave do
conflito que há décadas infelicita o Oriente Médio.
Os três governantes -cada um a sua
maneira- viram na diplomacia brasileira, especialmente no presidente
Lula, uma possibilidade de, por meio do diálogo, avançar no caminho de
uma solução negociada para um conflito que transcende a dimensão
puramente regional. Ele ameaça a paz no mundo.
Essa é também a percepção de muitos
líderes mundiais. O presidente norte-americano, Barack Obama, nas
conversações mantidas com Lula e em recentíssima carta a ele enviada,
reitera o papel que o Brasil poderá ter na busca de uma solução de paz
para o Oriente Médio -aí incluindo suas conversas com o presidente do
Irã, Mahmoud Ahmadinejad.
Mas essa não é a percepção de quem
defende uma política externa minimalista, para não dizer subserviente.
Nela, as grandes potências se ocupariam dos grandes temas enquanto os
demais países se ocupariam do resto. Assuntos como esse não poderiam ser
tratados pelos "vira-latas" aos quais se referia Nelson Rodrigues ao
analisar o comportamento de certos brasileiros, vítimas de complexo de
inferioridade.
Quando o governo organizou a cúpula
América do Sul-Países Árabes em 2005, essas mesmas vozes se fizeram
ouvir. Para que essa reunião? Haviam criticado, em 2003, a viagem de
Lula ao Oriente Médio, aí incluindo a Líbia. As críticas sumiram quando
Tony Blair [ex-premiê britânico], José María Aznar [ex-premiê espanhol]
e Silvio Berlusconi [premiê italiano] também fizeram o caminho de
Trípoli semanas após.
Durante a crise de Gaza, no começo
deste ano, o presidente Lula determinou que o chanceler Celso Amorim
visitasse o Oriente Médio e se entrevistasse com os líderes políticos da
região em busca de alternativas. Houve quem buscasse ridicularizar a
missão, qualificando-a de megalômana.
A persistência do impasse na região,
seu potencial explosivo e a pertinência de nossas propostas mostraram o
acerto daquela iniciativa.
A tese defendida pelo presidente Lula
era (e é) a de que havia necessidade de "arejar" as negociações no
Oriente Médio. A inclusão de novos interlocutores poderia dar aos
entendimentos uma credibilidade hoje inexistente.
Outros países, como a África do Sul,
a Índia e o próprio Brasil -para só citar três que não ocupam lugares
permanentes no Conselho de Segurança- podem contribuir para lograr o que
até agora os interlocutores de sempre, sozinhos, não conseguiram.
O Brasil tem posições claras. Defende
a existência de dois Estados -o Palestino e Israel- viáveis e seguros,
com base nas fronteiras de 1967.
Coincide com Shimon Peres [presidente
de Israel] e Mahmoud Abbas [presidente da Autoridade Nacional Palestina]
sobre a necessidade de trocar terra por paz.
Nossa diplomacia está segura de que a
imensa maioria das populações afetadas pelo conflito -judeus e
palestinos- anseiam pela paz.
O Brasil condena todos os que se
opõem à existência do Estado de Israel. Repudia todas as formas de
terrorismo. Insta Tel Aviv a suspender novos assentamentos e construções
nos território ocupados e a acatar as resoluções das Nações Unidas.
Metaforicamente, o presidente Lula tem citado a boa convivência de
árabes e judeus em nosso país como um paradigma a ser seguido mundo
afora.
Quem governa um país como o Brasil
-ou quem quer governar- sabe, ou deveria saber, que os temas de política
externa, sobretudo quando envolvem questões maiores, como a paz no
mundo, não podem ser objeto de oportunismo eleitoral.
O diálogo que o governo brasileiro
tem mantido com as comunidades árabe e israelita em nosso país e na
América Latina é transparente e não deixa dúvidas sobre nossas posições,
seja sobre temas de natureza histórica -como o Holocausto-, seja sobre
questões mais recentes, elas também dolorosas.
Essa cristalina transparência difere
das águas turvas dentro das quais pescadores lançam suas iscas. Mais
para atrair incautos eleitores do que para oferecer alternativas.
*Marco Aurélio Garcia, 68, é assessor especial de Política
Externa do presidente da República e professor licenciado do
Departamento de História da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
Foi secretário de Cultura do município de São Paulo (gestão Marta
Suplicy).