30/10/2009
Reflexões de um ex-vira-lata
Por Paulo Nogueira Batista Jr*
Antonio Patriota, até recentemente
embaixador brasileiro aqui em Washington, reclamou comigo: "Para de
falar em complexo de vira-lata! O Brasil passou dessa fase". Talvez o
nosso embaixador tenha razão. O Brasil vem ganhando autoconfiança com
uma rapidez surpreendente.
Nas recentes reuniões do G20, em
Londres e Pittsburgh, e na última reunião anual do FMI, em Istambul, o
Brasil bateu um bolão. Somos subdesenvolvidos? Sim. Temos equipes
pequenas? Sim, muito menores do que as dos países desenvolvidos. E, no
entanto, as delegações brasileiras têm sido das mais atuantes e
-correndo o risco de soar presunçoso- acrescento: das mais influentes.
A aliança Bric (Brasil, China, Índia
e Rússia) vem sendo fundamental. Mas não é só isso. O Brasil, em si
mesmo, tem tido um papel cada vez maior. Há um fator que nos ajuda
enormemente: a imagem favorável do país no exterior. A cotação do Brasil
está muito alta. Do Brasil como economia, do Brasil como ator na cena
internacional, do Brasil como nação cultural.
Bem sei, leitor, que o brasileiro
está longe de compartilhar uma visão tão positiva. Talvez porque esteja
mais perto do Brasil e conheça melhor as nossas mazelas. Talvez porque o
complexo de vira-lata ainda esteja mais vivo do que imagina o embaixador
Patriota.
Faço ainda outra ressalva: existe
provavelmente um certo economicismo na forma como os países são vistos
internacionalmente. O chamado mercado (um dos codinomes da turma da
bufunfa) só se interessa pelos indicadores econômicos e financeiros. Não
quer nem saber da péssima distribuição de renda, dos problemas sociais,
dos níveis ainda elevados de pobreza e de miséria.
Ora, os indicadores econômicos
brasileiros têm ficado, em geral, acima do esperado. Até 2007-2008, os
nossos detratores (quase sempre brasileiros) diziam: "O Brasil está
navegando uma onda internacional favorável".
Veio então a maior crise
internacional desde a Grande Depressão. A torcida adversária
(brasileira, em geral) começou a salivar intensamente, aguardando o
colapso. Não aconteceu. O Brasil sofreu os efeitos da crise, claro. Mas
menos do que se esperava. A recuperação brasileira também começou mais
cedo do que o previsto. Basta dizer uma coisa: no meio dessa crise
mundial, o Brasil anunciou um empréstimo de US$ 10 bilhões ao FMI.
O meu complexo de vira-lata deu
arrancos triunfais de cachorro atropelado (para combinar dois bordões do
Nelson Rodrigues em uma única frase). Quis o destino ou o acaso que
coubesse a mim, logo a mim -devedor nato, hereditário e até
inadimplente-, ser o diretor-executivo pelo Brasil no Fundo exatamente
nessa conjuntura. Qualquer um dos meus antecessores -Alexandre Kafka,
Murilo Portugal ou Eduardo Loyo- desempenharia o papel de credor com
mais categoria e convicção.
Só tenho uma coisa a dizer em meu
favor: apesar de credor neófito, acho que preservo uma identificação
autêntica com os devedores do FMI. Sei o que significa ser devedor dessa
instituição e, dentro do que posso, empresto a minha voz aos países em
crise, especialmente os pequenos e oprimidos (mesmo aos brancos de olhos
azuis). Foi o que tentei fazer pela Islândia, por exemplo, que passou
ontem pela Diretoria-Executiva do FMI.
Dizem que os mulatos podem ser os piores racistas. Que os cristãos-novos
são os mais fervorosos. Que um credor neófito pode ser o mais
linha-dura. Vamos tentar desmentir esses ditados.
*Paulo Nogueira Batista Jr. é diretor-executivo no FMI, onde
representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana,
Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).