10/02/2010
A Classe "C" vai ao paraíso!
Por Francisco Carlos Teixeira*
“Vejam essa
maravilha de cenário
É um episódio relicário
Que o artista num sonho genial
Escolheu para este Carnaval”
(Aquarela Brasileira, Silas de Oliveira, Império Serrano, 1964).
A Fundação Getúlio Vargas (Rio),
através do seu Centro de Políticas Sociais, publicou uma recente
pesquisa na qual vemos a chamada classe “C” – aquelas pessoas cujos
lares recebem entre R$ 1.115 e R$ 4.807 por mês – tornarem-se 49.22% do
total da população brasileira. Houve, na verdade, um salto fantástico:
em 2003 eram 37.56% da população, passando em 2008, para 49.22% do total
de brasileiros. Podemos acreditar que não fosse a crise econômica
mundial de 2008/09 este coeficiente seria bem mais alto.
A luta contra as desigualdades
- Qual o verdadeiro significado destes números? Simples e direto: a
desigualdade social foi, em cinco anos, reduzida drasticamente. Mesmo
com um crescimento baixo, mesmo sofrendo os efeitos da crise (nem
”marolinha”, nem tsumani!) o país foi capaz de oferecer oportunidades e
esperança de vida melhor para 91 milhões de brasileiros. Para tornar
mais claro o impacto podemos citar um jornal que não pode ser, de forma
alguma, considerado “chapa-branca”, O GLOBO: “... essa migração em
massas alterou o rumo da divisão historicamente desigual do bolo no
Brasil...”.
Desde os anos '30, do século XX,
quando a Questão Social deixou de ser caso de polícia e virou desafio do
Estado, a discussão sobre os métodos de sanar as justiças sociais tem
sido o centro do debate político no país. Durante os anos '30, de 1930
até 1945, Getúlio Vargas acreditou que o autoritarismo político, a
repressão, e um jogo dual entre patrões e trabalhadores seriam o
suficiente para alterar a injusta divisão social do país. Foram dados,
então, passos enormes, se comparamos com o imobilismo e a repressão
vigente na República Velha (1889-1930). Justiça do Trabalho,
sindicalismo oficial, CLT forma passos de refundação da Questão Social
no Brasil. Porém, o autoritarismo político, a perseguição da esquerda
não varguista e o atrelamento ao Estado constituíam o lado quase oculto
da “dádiva” varguista.
Após a estagnação de Dutra –
de quem Pablo Neruda disse ter “ojos de cerdo” – voltou-se, ainda com
Vargas, agora entre 1951-1954, para um modelo mais descomprimido de
distribuição social. Ainda aí o Estado foi o agente básico da justiça
social, estabelecendo o salário mínimo como referência de justiça (o
então ministro do trabalho, Joao Goulart, dará um aumento de 100% do
mínimo, despertando a ira da classe patronal. No Primeiro de Maio
daquele fatídico ano de 1954 o salário mínimo era descongelado, para
horror das associações patronais. Abriu-se aí a crise cujo desfecho será
um tiro solitário num dos salões do Palácio do Catete, em agosto de
1954.
1954 contra 1964 - Com um tiro
no peito, Getulio adiou em 10 anos o golpe da UDN: os políticos de
direita do país, cansados de perder as eleições e a escolha popular, e
com calos nos dedos de tanto bater à porta dos quartéis (expressão do
amigo, Marco Aurélio Garcia!) foram enfim atendidos. Deu-se, então, o
Estado Novo da UDN. Uma “santa aliança”, quer dizer bendita pela Igreja
organizada nas “Marchas da Família com Deus pela Liberdade ( ou seria
pela Propriedade?)”, entre empresários, mídia, classe média (assustada,
com a maré montante de um jovem proletariado urbano).
Desde 1964, todos se reuniram em
torno da ditadura civil-militar (não podemos esquecer a participação, o
apoio civil – os governadores eleitos do Rio, São Paulo e Minas Gerais
eram as lideranças do Golpe - e das entidades ditas “de classe”, quer
dizer patronais) ao regime que durou de 1964 até 1985.
Mesmo aí, as classes patronais
ficaram insatisfeitas com os rumos da Questão Social: os sindicatos dos
trabalhadores estavam amordaçados, suas direções presas, exiladas ou
ainda pior... Arrocho salarial, reforma regressiva da CLT, fim da
liberdade de expressão, etc... eram as marcas do novo regime. Mas, após
o surto liberal – Roberto Campos, ex-embaixador nos EUA, assumiu o
ministério do Planejamento e em nome do combate à inflação reduziu
drasticamente os direitos dos trabalhadores! – os próprios militares
foram tomados de uma febre nacionalista e desenvolvimentista.
Malgrado a repressão, brutal entre
1969 e 1978, anos de chumbo, anos de terror (onde mais uma vez os civis
tiveram um papel central, como na Operação Oban), vários setores da ação
do Estado foram fortalecidos e alguns programas sociais foram montados,
tais como o Estatuto da Terra (1964 ) e o Funrural (1967). Trata-se, é
claro, de medidas preventivas, visando esvaziar o movimento social, e
não a fim de atendê-lo. Contudo, mesmo isso, migalhas da mesa do
“Milagre Brasileiro”, era demais para as “classes patronais”.
Democratização e Imobilismo -
Pegando carona, de forma imoral, posto que só elas lucrassem com a
ditadura, estes mesmos setores embarcaram na luta pela democratização.
Inscreveram, aí, ao lado das exigências básicas da população, uma enorme
lista de ações que deveriam reduzir o Estado, transformá-lo em Estado
Mínimo. Acusavam os militares de “estatismo”. Eram dados os exemplos de
Thatcher ou Reagan, os teóricos da chamada Escola de Chicago, the
chicago's boys, para “consertar” o país. Um país que nunca dera escola
às suas crianças, onde a fome batia à porta de milhões (salve, salve,
Betinho!), onde faltava água limpa e esgoto corrente, deveria ter seu
Estado reduzido ao mínimo.
As exigências (neo)liberais, em tal
contexto, assemelham-se, nos países pobres, ao genocídio puro e simples.
O Consenso de Washington seria, em verdade, economizar em escolas, em
merenda escolar, em estradas, em hospitais para, em fim, pagarmos a
dívida sem risco para os fundos de pensões norte-americanos e europeus.
Nossa elite aplaudiu. Aplaudiu a maior transferência de renda regressiva
da história, canalizando o fruto do trabalho dos povos do hemisfério sul
para as economias centrais do capitalismo.
Contudo o projeto de modernização
autoritária e regressiva faliu. Deu-se a crise do petróleo. A crise da
dívida externa. A crise dos preços das commodities – da re-inteiração da
condição colonial. O movimento social, autônomo desde as greves do ABC,
em 1980, fortemente ancorado numa opinião pública exigente e crítica
baniu, em um final melancólico, o regime autoritário.
Esperanças e Frustrações - A
redemocratização trouxe grandes esperanças. Principalmente a idéia
generosa que os direitos cívicos não mais se resumiam em votar e ser
votado, em poder exprimir sua crítica presa na garganta, em gritar o
grito daqueles desde sempre sem voz. A redemocratização do Brasil, no
início dos anos '80 do século XX – bem como de toda a América do Sul –
exigia os direitos cívicos básicos e muito mais. Cidadania era, então,
um conceito expandido, alargado para abranger educação, saúde, moradia,
transporte e, mais além, igualdade social, racial, de gênero e de opção
sexual.
Contudo, desde a reunião da
Assembléia Nacional Constituinte, a direita tradicional e a nova direita
liberal uniram-se, no chamado “Centrão”, para paralisar as reformas
necessárias. E aí vivemos anos seguidos de incompetência – governos
Sarney, Collor e Itamar – somados aos anos de reformas regressivas, na
Era FHC. Esta se inicia, no próprio discurso de posse do Presidente FHC,
prometendo encerrar a “Era Vargas”. Ora, o que seria a “Era Vargas”?
Tratava-se, em verdade, de impor o Estado Mínimo, aceitar a captura do
Estado pelos interesses privados, acobertados pela instituição de
agências reguladoras, a ameaça de um Banco Central dito “independente”
(mas, constituído de personagens saídos e chegados da grande banca) e a
total ausência de qualquer política pública de desenvolvimento, emprego
ou trabalho. O fundamentalismo monetário, o medo pânico de destruir uma
arquitetura de controle da inflação tão frágil que qualquer solavanco de
crescimento do PIB poderia derrubar o Plano Real. Era como o médico que
para extinguir a febre mata o paciente. Acreditava-se que o país, para
controlar a inflação, não poderia crescer. Inflação ou crescimento: este
era o falso dilema do liberalismo.
Rompendo com o passado - A
vitória do Partido dos Trabalhadores veio exatamente romper, como no
caso do nó górdio, o dilema. A questão é: como crescer, como erradicar a
desigualdade social, sem inflação? O papel do Estado como condutor do
processo, a criação de políticas corretivas das desigualdades sociais e
regionais, bem como olhar o povo como cidadão, e não como mão de obra
fácil e disponível, eis a resposta proposta desde 2003. Tudo isso
recusando o autoritarismo e o paternalismo. Não se tratava de “encerrar
a Era Vargas”. Tratava-se de ir mais além!
Os resultados estão aí, brotando do
fundo da sociedade brasileira: entre 2003 e 2005, 27 milhões de pessoas
mudaram de patamar social no Brasil, ascendendo para uma condição social
superior, mais digna e mais humana. São novos consumidores, que exigem
seus direitos sociais expandidos: “... os anos 2000 permitiram ao [novo]
consumidor não só comprar, mas escolher o produto com que mais se
idêntica” (O GLOBO, 7/02/2010). Também a desigualdade regional foi
atacada e recuou nos últimos cinco anos: segundo Marcelo Néri, o
Nordeste – aquele mesmo Nordeste de personagens como Baleia, de
Graciliano Ramos ou do “lobisomem amarelo” (o homem atingido pelas
doenças) de José Lins do Rego – cresceu a um ritmo “chinês” atingindo
7.7% ao ano.
Em suma: vivemos num país melhor, mais justo e menos desigual.
*Francisco Carlos Teixeira Da Silva, professor da UFRJ, é autor,
com Maria Yedda Linhares, de “Terra Prometida: uma história da questão
agrária no Brasil”.