01/09/2008
Este é o quinto de uma série de oito boletins que foram
produzidos pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos da Arquidiocese de
Belo Horizonte em parceria com o Programa de Pós-graduação em
Ciências da Religião da PUC de Minas Gerais.
Leia e divulgue!
Pode ser reproduzido e publicado livremente, desde que citada a
fonte.
Silvestre dos Santos Lima
Comissão de Comunicação do CNLB
PROJETO ELEIÇÕES 2008
BOLETIM no. 5
Eleitor consciente não aceita a corrupção
Você ainda se lembra em quem votou
para vereador em 2004? Se respondeu sim, parabéns, pois as pesquisas
mostram que a maioria dos eleitores não conseguem responder a esta
pergunta.
Ao votarmos em uma pessoa, conferimos
a ela um poder que pertence a cada cidadão. É como se passássemos uma
procuração para que outra pessoa decida em nosso nome, por um período de
quatro anos. Essa procuração é o mandato dado pela Justiça
Eleitoral, em nome da população. Por isso, todo cidadão tem o direito de
cobrar dos eleitos que cumpram os compromissos assumidos na campanha e
que trabalhem de maneira ética e responsável. O problema é que muita
gente não tem consciência do seu próprio poder político e acredita que o
mandato é uma conquista dos candidatos vitoriosos, um prêmio que recebem
para usarem à vontade. Vejamos as raízes históricas dessa alienação do
poder do cidadão.
Nos tempos do império, somente os
homens livres, os proprietários ou os que provavam ter certa renda
anual, podiam votar. A República ampliou o número de eleitores, mas até
1930, no Brasil, eles não chegavam a 5% da população total. Em 1933 o
direito de voto foi estendido às mulheres, mas as pessoas analfabetas,
os soldados e cabos, os índios e os jovens entre 16 e 18 anos somente em
1988 conquistaram o direito de voto.
Felizmente, hoje, o Brasil já tem
mais de 100 milhões de pessoas legalmente aptas a votar. É um grande
avanço para a democracia, porém, nem todas essas pessoas conhecem as
regras jurídicas do processo eleitoral. No mês passado refletimos sobre
as relações entre o Executivo (prefeito e secretários) e o Legislativo
Municipal (vereadores). Neste mês refletiremos sobre o problema da
corrupção.
A Corrupção é um atentado à democracia!
A corrupção é um dos maiores
problemas da democracia. Infelizmente, ela existe por toda parte. Em
nosso país suas formas mais freqüentes são o clientelismo e a
corrupção eleitoral. É preciso saber como funcionam, para que sejam
denunciadas e eliminadas.
Os cargos políticos trazem muitas
vantagens pessoais para quem os conquista. Além das vantagens legítimas,
previstas por lei, tais como a boa remuneração, a imunidade parlamentar
e a contratação de assessores, eles abrem possibilidade para a busca de
vantagens ilegítimas, decorrentes do uso do poder público para alcançar
benefícios privados.
Isso se dá, por exemplo, quando o Executivo contrata empreiteiras que
praticam o superfaturamento das obras públicas ou que fazem obras com
material de qualidade inferior ao previsto e embolsam a diferença.
Depois dividem os ganhos, destinando-os ao financiamento ilegal de
campanhas eleitorais, ou a depósitos fora do Brasil.
No caso de parlamentares, a
forma mais usual de corrupção está na venda do voto para certos projetos
de lei. Um exemplo: num bairro onde são permitidas apenas residências de
até quatro andares, uma empresa imobiliária quer construir grandes
edifícios e tem grande interesse em ver aprovada uma lei que mude o
plano diretor municipal. Alegando que o projeto favorecerá o
desenvolvimento urbano, a maioria dos vereadores o aprovará, recebendo
depois um apartamento cada um... Esta é uma forma de corrupção tão
difícil de ser provada que alguns parlamentares chegam a dizer,
cinicamente, que “é dando que se recebe”... O profeta
Jeremias assim descreveu este tipo de político:
“Como gaiola cheia de
passarinhos, assim as casas deles estão cheias de coisas roubadas. Eles
se tornaram ricos e importantes, gordos e reluzentes. (Jr. 5,
27)
Políticos corruptos, que buscam
vantagens ilegítimas nos cargos públicos, somente conseguem alcançar
seus propósitos encobrindo-os com falsas promessas ou comprando votos de
pessoas que desconhecem o valor do voto. São como lobos cobertos por
peles de ovelhas, que se aproveitam da necessidade econômica de muitos
cidadãos honestos, para oferecerem benefícios de ordem material, na
certeza de que quem recebe tais benefícios poderá retribuir com o seu
voto nas eleições.
A Lei 9840: uma conquista do todos!
Foi para combater essa forma perversa
de compra de votos que, em 1997, a Comissão Brasileira Justiça e Paz
(organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB)
lançou a proposta de “Combate à Corrupção Eleitoral”. Ela obteve a
adesão de muitos grupos e organizações e conseguiu reunir mais de um
milhão de assinaturas para o Projeto de Lei de Iniciativa Popular.
A lei 9840 foi aprovada pelo Congresso Nacional e, a partir de então, a
compra de votos é punida com a perda do mandato.
Esta foi uma vitória importante na
luta contra a corrupção eleitoral e os resultados são animadores: uma
pesquisa divulgada em outubro de 2007 revelou que desde 2000, ano da
primeira eleição em que foi aplicada a Lei 9840, a Justiça Eleitoral
cassou o mandato de 623 políticos acusados de compra de votos.
É claro que ainda há muitos passos a
serem dados para eliminar a corrupção da cena política brasileira, pois
existe candidato que compra o voto e eleitor que vende. O primeiro passo
é a formação da consciência de que “voto não tem preço, tem
conseqüência”. Cada voto é precioso! É a procuração que damos a
alguém para nos representar no exercício do Poder Público e todos
queremos ter representantes dignos. Outro passo importante é fazer com
que as denúncias de corrupção eleitoral cheguem ao Ministério Público.
Para isso, o melhor instrumento de ação são os Comitês de Combate à
Corrupção Eleitoral. Se houver pelo menos um comitê por município
(nos municípios maiores é recomendável pelo menos um comitê por zona
eleitoral), será possível inibir a ação de políticos mal-intencionados.
Também na política vale a sabedoria
do Evangelho: “pelos frutos, reconhecereis a árvore”: político que tem
muito dinheiro para gastar na campanha, ou que distribui favores, não é
árvore boa. Se for eleito, por certo ele fará de tudo para recuperar o
que tiver gastado na campanha. Convém estar atento aos candidatos que
fazem doações para festas e eventos comunitários, oferecem faixas para
festas religiosas, patrocinam torneios esportivos, facilitam consultas
médicas e tratamento de dentes...
Após refletir sobre tudo isso, vai
aqui um desafio: o que você fará este ano para combater a corrupção
eleitoral?
Folheto produzido
pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos da Arquidiocese de Belo Horizonte
em parceria com o Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião –
PUC Minas. Mais informações no site
www.pucminas.br/nesp, ou no
Vicariato para Ação Social e Política:(31)34224430