08/09/2008
Este é o sétimo de uma série de oito boletins que foram
produzidos pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos da Arquidiocese de
Belo Horizonte em parceria com o Programa de Pós-graduação em
Ciências da Religião da PUC de Minas Gerais.
Leia e divulgue!
Pode ser reproduzido e publicado livremente, desde que citada a
fonte.
Silvestre dos Santos Lima
Comissão de Comunicação do CNLB
O processo eleitoral
O papel dos partidos e das
coligações na escolha dos eleitos.
No mês passado refletimos sobre o
funcionamento da Câmara de Vereadores e o trabalho das comissões. Também
discutimos sobre a importância dos Grupos de Acompanhamento do
Legislativo - GAL. Agora, vamos voltar ao processo eleitoral
propriamente dito. Entraremos no assunto fazendo uma pergunta que pode
até parecer boba: você sabe qual o destino do seu voto? Muita gente
pensa que o voto vai diretamente para o candidato, mas aí existe um
“detalhe” ao qual é preciso ficar atento: a apuração dos votos em
eleições majoritárias (para prefeito) é muito diferente da
apuração em eleições proporcionais (para vereadores).
Quando se trata de eleger o prefeito
municipal, os candidatos disputam uma única vaga, sendo eleito
quem obtiver a maioria dos votos; por isso, é uma eleição majoritária.
Já nas eleições proporcionais os candidatos e candidatas disputam
várias vagas (os municípios menores têm 7 vereadores, os maiores
podem ter até 51). Aqui vem o “detalhe” que precisamos conhecer, para
não nos deixarmos enganar por políticos espertalhões.
Para facilitar a compreensão do
processo, tomemos como exemplo o município de Belo Horizonte que, em
2004, tinha um milhão, seiscentos e oitenta mil eleitores e 41
vereadores. Como quatrocentas mil pessoas se abstiveram de votar ou
votaram nulo, foram dados um milhão, duzentos e oitenta mil votos para
preencher as vagas na Câmara Municipal.
Fazendo as contas, veremos que são
aproximadamente 31.200 votos por vaga. Este é o “detalhe” que determina
os eleitos: é o quociente eleitoral. Como esse número varia de um
município para outro, se você quiser conhecer o quociente eleitoral
de outros municípios, acesse a página do TSE, na internet:
www.tse.gov.br/eleicoes.
Pois bem, as vagas na Câmara
Municipal não são preenchidas pelos candidatos com maior número de
votos, e sim pelo total de votos dados aos candidatos do mesmo
partido, isoladamente ou coligado (para simplificar, em nossa
explicação deixaremos de lado a coligação). Ou seja, cada partido soma a
votação de todos os seus candidatos, mais os votos dados na legenda. Se
um partido não alcançar o quociente eleitoral, não elegerá
vereador e seus votos se “perdem”. Portanto, se o partido tiver 31.200
votos, elegerá um vereador; se tiver duas vezes 31.200, elegerá dois, e
assim por diante. Para preencher as últimas vagas, o número de votos
necessários pode ser inferior ao quociente eleitoral. São as
chamadas “sobras”, repartidas entre os partidos que fizerem pelo menos
um vereador.
É na distribuição das vagas a que tem
direito o partido que valem os votos nominais. Se o partido tiver
direito a três vagas, serão eleitos os três candidatos mais votados do
Partido, ficando os seguintes mais votados como 1º, 2º e 3º...
suplentes. No caso de Belo Horizonte, o vereador mais votado na última
eleição recebeu 20.157 votos; o menos votado recebeu 3.685 votos. Nenhum
deles teve votação suficiente para alcançar o quociente eleitoral.
Eles só foram eleitos porque foram beneficiados pelos votos de seu
partido ou coligação.
Candidatos e eleitores também podem ser iludidos!
Esse sistema eleitoral contribui para
garantir a representatividade dos cidadãos, porque o voto dado a um
candidato menos votado ajuda a eleger outro candidato do mesmo
partido. Como os membros de cada partido devem ter o mesmo
ideário político, é de se esperar que todos os candidatos e
candidatas de um mesmo partido se identifiquem com o seu projeto.
Daí a importância de terem os candidatos a mesma identidade partidária,
não reduzindo o partido a uma simples legenda eleitoral. Havendo
coerência partidária, não há “voto perdido” em eleições proporcionais
(exceto quando o partido não alcança o quociente eleitoral).
Fique atento aos oportunistas: nem
os todos candidatos de um partido estão ali para concorrer realmente!
Mas esse sistema pode também
distorcer a representatividade ao facilitar a eleição de políticos
profissionais que estimulam a candidatura de pessoas desinformadas,
somente para acrescentarem votos ao seu partido. Tais políticos induzem
as pessoas estimadas em suas comunidades a se candidatarem à Câmara de
Vereadores, porque elas trazem votos sem, contudo, colocarem em risco o
seu favoritismo. Passadas as eleições, essas pessoas descobrem que foram
usadas apenas como alavancas eleitorais.
Talvez você conheça um desses casos
em que a politicagem prejudica as comunidades. Por exemplo,
quando uma liderança comunitária se candidata a vereador e vê seus votos
favorecerem a quem não merece e frustra-se com a política. Isso não
acontece com quem sabe que sua candidatura visa apenas colaborar com seu
partido. Quando, porém, a pessoa é envolvida na campanha na ilusão de
conseguir eleger-se, a frustração pode ser grande. Em geral, a campanha
não destaca o partido, e sim sua vida pessoal e familiar, sua
participação na Igreja, sua honestidade pessoal e outros temas alheios à
política. Por isso não são raros os casos em que líderes usados para
alavancarem campanhas de políticos profissionais provocam divisões na
comunidade.
Pense bem antes de escolher seus candidatos!
É evidente que os cristãos, leigos e
leigas, podem e devem participar de campanhas eleitorais, mas é preciso
que essa participação tenha bem clara as regras do jogo eleitoral. Não
podemos esquecer a recomendação de Jesus:
“Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos; sede pois
prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt. 10, 16).
Entendermos bem o funcionamento do
sistema eleitoral, com suas regras de afiliação partidária e apuração
dos votos, é importante para que possamos saber qual será o destino do
nosso voto. Voto para vereador não se “perde”, porque conta como legenda
para o partido. Informar-se sobre os outros candidatos lançados pelo
partido do candidato em quem desejamos votar é tão ou mais importante
quanto informar-se sobre as qualidades do próprio candidato e sua
capacidade para o exercício de cargo político. Lembre-se: o voto vai
primeiro para o partido e só depois para o candidato.
Agora que você conhece o “detalhe”
aonde pode se esconder a politicagem nas eleições para vereador,
procure refletir sobre os candidatos e candidatas que estão pedindo o
seu voto. Algumas perguntas podem ajudar:
• Como essas pessoas apresentam seu partido?
• Elas são parte de um projeto político-partidário sério e democrático,
ou só vão “alavancar” algum político profissional?
• Você está disposto a colaborar para a vitória de uma candidatura na
qual confia? Se você tem vontade de colaborar, ótimo! Mas não se deixe
iludir por políticos espertalhões.
Folheto produzido
pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos da Arquidiocese de Belo Horizonte
em parceria com o Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião –
PUC Minas. Mais informações no site
www.pucminas.br/nesp, ou no
Vicariato para Ação Social e Política:(31)34224430