12/09/2008
Este é o ultimo de uma série de oito boletins que foram
produzidos pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos da Arquidiocese de
Belo Horizonte em parceria com o Programa de Pós-graduação em
Ciências da Religião da PUC de Minas Gerais.
Leia e divulgue!
Pode ser reproduzido e publicado livremente, desde que citada a
fonte.
Silvestre dos Santos Lima
Comissão de Comunicação do CNLB
Chegou a hora da votar!
Com este boletim encerra-se o nosso
trabalho de reflexão política para as eleições municipais de 2008. Quem
acompanhou toda a série, certamente terá percebido que vários boletins
fizeram críticas a certas idéias inscritas na cultura política
brasileira. Por isso, estamos diante de um desafio novo: é preciso mudar
nossa cultura política, nosso modo de pensar, para desenvolvermos uma
verdadeira democracia em nosso País.
É claro que isso poderá levar algum
tempo, como acontece com toda mudança nas formas de pensar e de agir de
um povo. Veja bem: há apenas trinta anos, pouca gente se preocupava com
a poluição dos rios. Muita gente jogava lixo no córrego, pensando que
dali ele seguiria por algum rio até desaguar no mar, onde toda sujeira
se dissolveria na enormidade das águas. Foram necessárias muitas
campanhas em favor da ecologia e do respeito à natureza, reforçadas por
leis de proteção ambiental, para que essa mentalidade começasse a mudar.
Hoje em dia, ninguém mais se sente no direito de jogar lixo nos córregos
e rios, e quem o faz é objeto de censura dos outros. Assim também
acontecerá com a consciência democrática: com perseverança, um dia
teremos uma nova cultura política.
No próximo mês deveremos comparecer a
uma seção eleitoral para votar, fazendo valer nosso direito de cidadãos
e cidadãs. Muitas pessoas estarão colaborando como mesários ou fiscais
de partidos, sentindo orgulho de prestarem um serviço à democracia. Dia
de eleições deve ter um ar de festa cívica, ser um dia especial a partir
do qual muita coisa poderá mudar em nossa cidade. Algumas pessoas,
contudo, dirão que só votam por serem obrigadas e que o voto deveria ser
facultativo. No fundo, prefeririam não se envolver com a política...
como se isso fosse possível. Não somos nós que nos envolvemos com
política: é a política que nos envolve. A questão é saber como lidar com
ela.
Ética e política
Aqui entramos no ponto crucial: a
ética da política. Desde a mobilização social do “fora Collor”, vem
crescendo na sociedade brasileira a consciência da ética na
política, isto é, o dever que têm os políticos de se comportarem
conforme os preceitos da Democracia. Eles são obrigados a agir com
honestidade, fidelidade às promessas de campanha, compromisso com o bem
comum acima dos interesses individuais. Essa obrigação é tão forte que
eles têm o mandato cassado quando se comprova que cometeram alguma
corrupção. Não é como no regime militar, que cassou mandatos de
políticos para calar as vozes que se opunham ao autoritarismo: hoje só
pode ter o mandato cassado quem comete desvios na conduta ética. Mas
esta dimensão da ética, embora muito importante, não esgota sua
aplicação à política.
Por isso, falar de ética da política
é dizer que a política deve ser a realização dos princípios éticos na
esfera pública. E quando se pergunta quais seriam os princípios éticos
fundamentais, isto é, aqueles dos quais não se pode abrir mão, a
resposta está nos Direitos Humanos. No mínimo, os direitos que,
tendo sido incluídos na Constituição, tornaram-se direitos extensivos a
todos os cidadãos de um País. Ou seja, a política como atividade humana
deve ser regida pelo cumprimento dos Direitos Humanos, segundo sua
hierarquia: os direitos referentes à vida devem prevalecer sobre os
direitos referentes às coisas, e os direitos referentes ao bem de todos
devem prevalecer sobre os direitos referentes ao bem particular. Por
exemplo: se for obrigado a cortar custos, o governo deve cortar antes o
gasto com o pagamento da dívida pública do que os gastos com saúde e
educação.
Neste ponto, a Ética fundamentada na
razão moderna encontra-se com a “regra de ouro” da ética
tradicionalmente ensinada pelas religiões: “não fazer nem permitir que
seja feito aos outros aquilo que não queremos que nos façam”.
Isto é o que nos ensina, também, o
Papa Bento XVI, em sua encíclica sobre o amor. Em sua reflexão sobre Fé
e Política, e Igreja e Estado, ele conclui dizendo que o dever
imediato de trabalhar por uma ordem justa na sociedade é próprio dos
fiéis leigos. Estes, como cidadãos do Estado, são chamados a
participar pessoalmente da vida pública destinada a promover o bem
comum. Embora as manifestações específicas da caridade eclesial nunca
possam confundir-se com a atividade do Estado, a caridade deve animar
a existência inteira dos fiéis leigos e, conseqüentemente, também a sua
atividade política vivida como “caridade social”.
A mudança está em nossas mãos
O tempo de preparação para as
eleições municipais deve ser então dedicado à prática da verdadeira
Política, que cria estruturas justas. O voto consciente é importante,
mas ainda mais importante é o trabalho de conscientização política que
pode ser feito nesses dias que antecedem as eleições, quando política é
assunto em qualquer conversa.
Você, que desde os primeiros meses do
ano veio acompanhando a reflexão oferecida pela Arquidiocese de Belo
Horizonte é mais uma vez convidado a realizar uma ação muito importante:
• leve este boletim a outras pessoas para juntos debaterem a
relação entre ética e política;
• se o grupo considerar proveitosa a leitura, estimule-o a
fazer o mesmo com os boletins anteriores.
• convide o grupo a participar ativamente das eleições,
apoiando a candidatura que lhes pareça trazer maior contribuição para
uma cidade onde reinem a Justiça e a Paz.
Esteja certo de que essa ação será de
grande importância para construir, em nossa cidade e em nosso País, a
Democracia: política, social, cultural, étnica e econômica. Mais que
isso, ela fará a Igreja avançar em sua missão de anunciar e construir o
Reino de Deus.
Lembre-se sempre da exortação do Apóstolo:
“Meus irmãos, se alguém disse que tem fé, mas não tem obras, que
adianta isso?” (Tg 2, 14)
Um último recado: a participação
política e cidadã não termina com o voto, no dia da eleição. Ela
prossegue durante todos os dias, no acompanhamento dos eleitos, na luta
pelas melhorias em nossas comunidades, na exigência da ética na
política. O exercício da política, com responsabilidade, faz parte da
vivência cristã da fé.
Folheto produzido
pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos da Arquidiocese de Belo Horizonte
em parceria com o Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião –
PUC Minas. Mais informações no site
www.pucminas.br/nesp, ou no
Vicariato para Ação Social e Política:(31)34224430