Discurso do deputado federal, Carlos Abicalil (PT), na sessão solene de
diplomação dos candidatos eleitos nas eleições gerais de 2006.
Boa noite a todos e a todas,
cumprimento as autoridades que compõem a mesa de honra: o presidente do
Tribunal Regional Eleitoral, desembargador Antonio Bitar Júnior; o
procurador geral da República em Mato Grosso, Paulo Prado, o prefeito
municipal de Cuiabá, Wilson Santos, o governador reeleito do Estado,
Blairo Maggi e demais autoridades...
Meus senhores, minhas senhoras muito
boa noite!
Nós vivenciamos, no ano de 2006, uma
afirmação inequívoca do aperfeiçoamento de regras democráticas; da
discussão e o debate franco sobre a condição da política nacional
regional e local; do êxito deste processo eleitoral que envolveu, sem
dúvida alguma, não apenas o trabalho e o empenho de tantos milhares de
cidadãos e cidadãs, servidores e servidoras, de militantes, de pessoas
apaixonadas pela condução da vida pública política. Cidadãos e cidadãs
que diante das vicissitudes da vida nos expusemos e fomos expostos ao
julgamento popular. A contribuição valiosa de cada um e cada uma que
foram candidatos e candidatas, inclusive aqueles que não alcançaram a
diplomação hoje - nem a condição de titulares dos respectivos cargos
disputados nem na condição de suplentes -mas sem os quais, seguramente,
nossas coligações e legendas não trariam a termo o resultado do mandato
dos próximos quatro anos. A atenção militante de tantas pessoas
anônimas, entidades, movimentos sociais e organizações. A crítica, boa
companhia de todas as horas em particular da vida pública; a
generosidade e a confiança do povo que desistiu da esperança.
Diploma é uma expressão de origem
grega que para o latim se importou com a mesma pronuncia: diploma.
Emprestada também a língua portuguesa, que significava originalmente
oferecer um documento, em duplicata: um vai com aquele que é
certificado, outro fica com quem certifica. “Hoje recebemos o diploma!”
Esse diploma, que segundo os
eruditos, desde a renascença, é reservado exatamente para designar os
atos mais solenes dos quais participam autoridades. Hoje, a autoridade
maior presente é o presidente do Tribunal Regional Eleitoral, que nos
concede em nome da sociedade de Mato Grosso este diploma.
Atualmente são diplomas aqueles
documentos que compravam a obtenção de um título e é nesse sentindo que
recebem diplomas tanto os formandos em cursos superiores como nós,
eleitos para cargos públicos.
Já
no dicionário Aurélio, o diploma vem acompanhado de alguns acréscimos de
significação importante: ele afirma habilitações de alguém ou confere um
grau, ou cargo, uma dignidade, uma carta.
Neste momento, meus caros pares,
minhas caras pares, nós temos rigorosamente a mesma dignidade, a mesma
carta, a mesma diplomação. Mesmo que advindos de composições políticas
distintas, mesmo tendo feito disputas públicas, mesmo que divergindo das
opiniões, das idéias, somos - em nome do povo de Mato Grosso -
portadores de uma mesma dignidade.
Isto nos remete à dignidade na sua fonte que é a comunidade humana
comunidade a que qualquer homem ou mulher pertencemos. Fonte da
dignidade unificada neste momento, nesta solene ação de diplomação é a
comunidade humana. A humanidade como primeira comunidade também é a
afirmação primeira do ponto de vista político. Toda a sociedade humana
tem ou tende a ter a política como forma de dar vazão ao horizonte de
unidade. E deverá ser unidade na distinção, na diferença, na
contraposição, na divergência. A diferença, portanto, é um valor, não é
um desvalor. A concorrência e as disputas políticas são indispensáveis
na vida democrática. A desigualdade, por outro lado, esta deve ser
denunciada, pois contraria a unidade e a fonte da comunidade mundial.
Se a humanidade é a primeira
comunidade jurídica, então existe um bem comum, afirma a tradição
judaico-cristã. Não pode ser negado este bem comum em nome daquilo que
em determinado momento, aparece como algum interesse setorial,
particular ou de grupo de uma comunidade. A tarefa da política é inserir
todos esses interesses num projeto que a cada tempo se renova e que
assegure o bem da comunidade, através do exercício corajoso,
transparente, pertinaz, permanente do conflito e da mediação.
A política não nasce por temor dos
inimigos. Ao contrário, a política nasce por amor aos amigos e por
constituição de novas amizades em novos horizontes, com novos grupos.
Já vem da filosofia clássica.
Aristóteles, no “Comentário sobre política”, no tempo em que não se
falava em pensamento único, nem de fim das ideologias, nem distinção de
uma sociedade sem conflitos, já pugnava contra o pensamento único, o
estado único, o partido único. Aristóteles já afirmava que por natureza,
a cidade não deve ter uma unidade tal que os cidadãos sejam semelhantes
entre si (no sentido de não terem distinção) como alguns sustentaram em
outros tempos. Além disso, o que se considera constituinte de o máximo
bem para uma cidade, ou seja, a unidade absoluta, efetivamente a
destrói.
Por esta razão, a unidade total não
pode constituir um bem para a cidade, porque cada ser conserva em si
aquilo que representa o seu próprio bem, sua diferença, sua identidade.
As regras da democracia supõem a alternância de poder e supõem também a
competição. As eleições são um dos momentos mais importantes em que se
exprime, na convecção, na divergência, na exposição, a igualdade
cidadãos e cidadãs, a diversidade de pensamentos e proposições, a
liberdade de escolher. O modo de entendê-las e vivê-las determina a
qualidade da democracia.
O latim concurrere tem significado de
confronto, mas também de correr junto, de acorrer, de juntar-se. Se o
objetivo da política for apenas rachar a cidade, dividir a sociedade,
então a luta poderia ser uma concorrência combatida sem a exclusão de
qualquer tipo de golpe, de inimigo contra inimigo. Mas, se a política
consiste em governar pessoas livres e diferentes porém, iguais, então
vive-se nas diferenças sem abandonar aquilo que une: a igual dignidade
das pessoas da comunidade humana.
Do latim vem outra expressão
praticada também nas eleições: competere, que significa tender para um
ponto, encontrar-se num ponto. “Topos Aydos” diziam os gregos, um lugar
onde se encontram as idéias – utopia. Durante algum tempo, algumas
linhas de pensamento quiseram baní-la, extirpá-la dos sonhos da vida
humana.
Utopia, concurrere e competere,
significam e pressupõem que sejam percorridos os caminhos diferentes sem
temor de percorrê-los. Mas que possam ter por finalidade o bem comum.
Supõem que haja programas políticos, definições, explicitações, idéias
sólidas, debates, fundamentos questionáveis e questionados, referência
direta aos princípios inspiradores, a indicação para os instrumentos de
sua realização.
Definir a sua própria identidade
política é fundamental. Não é vergonhoso. Não deve, pois, ser evitado
para favorecer a escolha que seja efetivamente coerente e responsável.
Em um duelo entre políticos, sempre existe um terceiro, que acompanha
tudo ao seu modo, pois a relação política é uma relação pública, e é o
cidadão a testemunha, a cidadã, aquela ou aquele que avalia o
comportamento. Cabe a nós políticos aprender a dirigirmo-nos aos
cidadãos e cidadãs, a fim de explicar cada situação, suas causas, suas
conseqüências; avançar nas propostas e questionamentos de superação;
convidar os adversários a fazê-lo, numa confrontação que é sempre
construtiva e aponta para o momento superior, maior, melhor, de mais
qualidade.
Nós teremos uma pauta intensa nesse
próximo período de quatro anos. Pauta permanente, pauta reiterada, às
vezes pauta insolvente, pauta pendente.
Pauta da criança, adolescente,
jovens, idosos, da erradicação da pobreza - dever constitucional - da
redução das desigualdades, da distribuição da riqueza, da multiplicação
das oportunidades, da integração soberana e solidária no cenário
regional e global, para qual nosso estado de Mato Grosso e a região
Centro-Oeste têm papéis que são absolutamente estratégicos e decisivos.
Habitação e saneamento, educação, saúde, cultura, esporte e lazer,
ciência e tecnologia, segurança pública, combate à corrupção, ao crime
organizado, promoção dos direitos humanos, a política de juros, do
endividamento público, a poupança interna, a capacidade de
investimentos, o emprego, o crédito, a renda, a transparência, o
controle democrático, a participação popular, a democratização da
informação e dos veículos de comunicação de massa. Vale, talvez, lembrar
um velho conselho, a todos nós presentes e aqueles que estão nos
assistindo, através da TV Assembléia, aqueles que lerão as notícias:
“Ocupem-se do que é verdadeiro, nobre, justo, amável, puro, virtuoso ou
que de algum modo mereça louvor. Então, o Deus da Paz estará com vocês!”
Há princípios da conduta pública: a
publicidade dos atos, a impessoalidade das decisões, a legalidade
daquilo que é determinado em nome do povo para o povo, jamais vai ser
contra o povo.
Vivemos, sim, em um sistemático
combate à improbidade, à impunidade. Mas não se pode confundir o combate
à improbidade e à impunidade, com a criminalização da política. Todas as
vezes que de maneira sorrateira, todas as vezes que de maneira rasteira
a criminalização da política foi tema de difusão, o resultado foi
ausência de liberdade, a violência, a violação, a ausência de
participação. Atos tenebrosos, tortura, guerra, violência. Não! Não se
confunde o combate à impunidade com a criminalização da política.
O direito à imagem pública e à preservação da reputação pertence a todos
os cidadãos e cidadãs, inclusive aqueles que vivem no universo público,
na política.
A presunção da inocência, o ônus da prova ao acusador, o devido processo
legal são direitos fundamentais na sociedade democrática. Não serviram
para omitir qualquer mal-feito, desfeito ou ilegalidade, mas são
elementos indispensáveis para a convivência em ambiente democrático.
A reparação, a retratação da imagem
ou mesmo a correção pela culpa e a atribuição de penas não podem
prescindir desses princípios.
O risco da criminalização da política
encontrará em nós, senhores e senhoras, diplomados e diplomadas, um
enfrentamento cada vez mais intenso, mais pertinaz e permanente, porque
não é um assunto de ontem, não é um assunto do século passado. É um
assunto de hoje, será assunto de amanhã e, minhas senhoras e meus
senhores, será assunto das próximas gerações.
Aristóteles, no livro “Ética a
Nocômacos”, dizia que até podemos contemplar o bem de um único
indivíduo, ele será hesitoso, meritório. Mas, afirmava Aristóteles, é
mais belo e mais divino o bem de um povo e de cidades inteiras. Esta
reflexão nos remete ao artigo primeiro da Constituição Brasileira: Todo
poder emana do povo e em seu nome é exercido.
E não há cargo público, poder ou
função pública, que mais vínculo tenha com este artigo fundamental da
Constituição, do que os cargos obtidos pela eleição e pelo voto direto.
Nesse sentido, cidadãos e cidadãs de
Mato Grosso, amigos presentes, de todas as correntes de pensamento,
crenças, posições, partidos, coligações, a mesma dignidade nos impõe não
o abandono das nossas identidades, mas, a busca sincera e corajosa das
melhores decisões que não advirão das posições únicas, individuais ou
magistrais; advirão do debate, da publicidade, da divergência, do
amadurecimento da prática do convencimento e na diversidade.
Encerro de maneira humilde, com uma
oração, que cada qual pode atribuir ao seu próprio credo, aquele e
aquela que conduz, do ponto de vista dos valores máximos, a vida e a
conduta de cada um, de cada uma:
Que o Deus do interior e o Deus de
mais além...
Nos mostre o caminho para cruzar o
rio da vida, fluindo através dos obstáculos e penas, em vez de nos
destroçarmos hostilmente contra eles;
Que nos dê referências não para
sermos preservados/preservadas dos perigos, mas para podermos encará-los
de frente. Que nós não peçamos de maneira alguma o apaziguamento do
nosso sofrimento individual, mas a coragem necessária para superá-lo.
Que não imploremos com medo, para
sermos salvos, mas tenhamos a fé na paciência para conquistar a cada dia
a liberdade nova.
Conceda-nos não sermos
ingratos/ingratas, sabendo que unicamente à Tua sabedoria devemos o
nosso sucesso.
Mas, se nós sucumbirmos, que o aperto
da Tua mão nos socorra. (Jagore).
Parabéns, ânimo forte, um 2007 luminoso, corajoso, com as melhores
decisões!
Muito obrigado!