19/09/2007
Entrevista: Banco Mundial vê Bolsa Família como modelo
Terra Magazine - Há alguns dias o Banco Mundial se referiu ao Bolsa
Família como "uma revolução silenciosa". O programa é considerado
modelo?
Bénédicte de la Brière - O Bolsa Família é herdeiro de uma longa
tradição de programas de renda condicionada no Brasil, que começou com
programas municipais e que foram expandidos no começo dos anos 2000, com
o Bolsa Escola e o Bolsa Alimentação. Nesses anos de aperfeiçoamento, o
Brasil acumulou uma grande experiência de gestão. Definitivamente, o
programa está se tornando uma referência na América Latina e em outras
regiões.
TM -
Ouve-se falar muito de desvios no Bolsa-Família, de pequenas cidades
onde as pessoas beneficiadas são ligadas a políticos ou participam de
esquemas de compra de votos. Até que ponto o programa chega a quem
efetivamente precisa dele e de que forma essa eficácia é aferida?
BB - É verdade que há registros freqüentes de desvios na mídia.
Mas, quando você analisa os dados de pesquisas domiciliares, como a PNAD
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, você se dá conta de que o
Bolsa-Família é o programa mais bem focalizados na região. Do total de
recursos, 80% chegam aos 40% mais pobres, o que está na média dos
programas mais eficazes, e o programa tem uma cobertura universal no
nível de municípios. Essa é a melhor maneira de verificar, as pesquisas
são de alta qualidade, independentes, do IBGE, que tem cobertura
nacional. Existe uma grande diferença entre a percepção de desvios, que
é muito importante, e a ocorrência de desvios, que está no nível do que
se espera para os programas mais eficazes. Quero ressaltar que esses
erros acontecem em todos os programas. E existe um balanço muito
delicado para um gestor, entre tratar de controlar esses erros muito
frontalmente, o que é muito caro, e entregar mais recursos para pessoas
necessitadas, talvez com um maior grau de erro.
TM - E
como controlar os desvios?
BB- O governo brasileiro tem tomado várias atitudes para reduzir
esses desvios. Quando o programa começou, ele herdou o cadastro único
que havia sido desenvolvido para o Bolsa Escola e o Bolsa Alimentação.
Juntou os cadastros dos diferentes programas e, em 2006, fez um
recadastramento geral de toda a população beneficiária, o que gerou uma
grande limpeza da base de dados. Também a cada mês a base do cadastro
único está sendo batida com a da RAIS, que tem informações dos
trabalhadores do setor formal, além de bases de óbitos e outras. Uma
série de checagens da qualidade da informação. Por outro lado, o governo
está aprimorando todo um sistema de controle, desde estruturas de
controle social no nível dos municípios até as instâncias de controle
federal, como as auditorias da CGU Controladoria Geral da União. Outra
fonte de controle na qual o Brasil está bastante forte é o funcionamento
do número de telefone 0800-707-2003 no qual as pessoas podem denunciar
irregularidades. O processo de acompanhamento dessas queixas tem
melhorado bastante. É um processo de aprendizagem contínua, porque você
consegue controlar certo tipo de erro ou de fraude e vão aparecendo
outros. Mas a gestão do programa está muito atualizada nas técnicas que
utiliza para poder resolver essas questões.
TM - Os críticos do Bolsa Família dizem que o programa cria uma geração
de pessoas dependentes da ajuda do Estado. Já os entusiastas afirmam
que, graças à essa ajuda do Estado, essas pessoas - ou seus filhos -
conseguirão alcançar uma inserção no mercado de trabalho e se livrar da
miséria. Quem tem razão neste debate?
BB - Outra vez, é uma questão de percepção contra evidências.
Você sempre vai encontrar alguém que diga "eu tenho Bolsa Família, não
vou trabalhar mais", mas isso não é um fenômeno corroborado pelas
estatísticas. Todos os programas de transferência condicionada de renda
recebem essa crítica de assistencialismo e geração de dependência. Nos
programas que têm feito avaliações rigorosas, inclusive o Bolsa Família,
esse efeito nunca é comprovado. A única diminuição de oferta de trabalho
que acontece é a de trabalho infantil. O trabalho adulto não é impactado
pela transferência de renda. Inclusive, às vezes, alguns adultos
trabalham mais porque têm essa garantia de renda básica que permite
assumir um pouco mais de riscos em suas ocupações. Avaliações de impacto
feitas em 2005 não mostraram diferenças de comportamento dos adultos em
relação a ofertas de trabalho entre os que participavam e os que não
participavam do Bolsa Família. É uma inquietude motivada, em parte, pela
novidade de entregar dinheiro às famílias pobres. Mas nunca se provou,
nas avaliações rigorosas que foram feitas no México, na Colômbia, na
Nicarágua, no Equador... No México temos avaliações de longo prazo,
porque o programa já tem dez anos de existência. O que se mostrou é que
as famílias, quando têm certeza do benefício, economizam e investem até
25% em microempreendimentos, em criação de aves, em máquinas de costura
etc.
TM - Os beneficiários do programa têm de atender a determinadas
condições, como colocar os filhos na escola, freqüentar postos de saúde
etc. A fiscalização do atendimento dessas condições é eficaz?
BB - Um pouco como a fiscalização da focalização, ela sofreu um
processo de aprimoramento muito forte. É preciso lembrar que o Bolsa
Família resultou da fusão de quatro programas, e um dos grandes desafios
foi harmonizar os sistemas de informação. O monitoramento das
condicionalidades de educação está bastante alto. Há mais desafios para
monitorar as condicionalidades de saúde, mas é muito mais complicado.
Quero enfatizar que o programa aprende fazendo, que tem inovado
muitíssimo desde 2003, aprimorando não só os sistemas de informações mas
também a consciência dos gestores sociais e dos beneficiários.
TM - Quantos programas são abertamente inspirados no Bolsa Família?
BB - Em 1997, quando a idéia dos programas de transferência de
renda começou a ganhar força, havia três países no mundo com essa
experiência: Bangladesh, México e Brasil. Agora quase todos os países da
América Latina têm um programa desses. Há muito interesse de países
africanos, incluindo África do Sul, Quênia e Etiópia. Há programas na
Turquia, no Camboja, no Paquistão, em vários países do sul da Ásia. E
Nova York está começando um que se inspira explicitamente no programa
brasileiro e no programa mexicano. Egito, Indonésia, África do Sul, Gana
e outros países africanos mandaram representantes ao Brasil para
conhecer o programa.
TM - Em 10 ou 15 anos teremos menos brasileiros atendidos pelo programa?
BB - Isso depende muito de fatores que não têm nada a ver com o
programa, como o crescimento econômico mundial, a situação
macroeconômica. Esses programas visam a resolver a pobreza de hoje e
quebrar o círculo vicioso da pobreza através do investimento no capital
humano das crianças, através da educação, da saúde. Na medida em que
esses programas amadurecem, eles tomam outros desafios, entre eles a
inserção econômica dos beneficiários. O termo porta de saída não é muito
feliz, o mais correto é fomentar a entrada dessas pessoas para a
cidadania. Um dos ativos que as pessoas pobres têm é a sua mão de obra.
Por isso há uma ênfase grande nessa segunda geração de programas em
potencializar esse ativos das pessoas. Ou seja, fomentar a educação dos
jovens, para que passem do nível básico, fomentar o capital humano dos
adultos, através da alfabetização e da formação profissional e técnica.
Uma vez consolidada a arquitetura básica dos programas eles podem buscar
acelerar a inserção dessas famílias no ciclo econômica da sociedade.
Fonte: Terra Magazine