22/08/2007
Francisco Gaetani : Fundação Estatal trará mais qualidade aos serviços
prestados à população
Em entrevista ao Em Questão, o secretário de Gestão do Ministério do
Planejamento, Francisco Gaetani, diz que, com a Fundação Estatal, a
intenção do governo é tornar o gasto mais eficiente e oferecer serviços
de melhor qualidade para a população. Gaetani ainda explica como vai
funcionar o modelo e de que forma ele vai permitir a correção de
distorções recorrentes na administração pública.
Em Questão - Uma das críticas atribuídas ao projeto de lei que
cria a Fundação Estatal refere-se ao fato de esse novo modelo não atacar
todos os problemas de setores-chaves do serviço público. Uma das
soluções sugeridas seria uma ampla reforma administrativa. Qual o
posicionamento do governo com relação a isso?
Francisco Gaetani - O Brasil tem longa tradição de reformas
administrativas frustradas, especialmente nos últimos 70 anos. Em geral,
a frustração tem muito a ver com a ambição das reformas. A realidade do
Estado brasileiro é complexa: trata-se de federação heterogênea com três
níveis de governo e com pesos e contrapesos entre os poderes bastante
problemáticos. Neste contexto, os esforços de reformas políticas
globalizantes tiveram relativamente poucas chances de sucesso. Reformas
do Estado confrontam múltiplos interesses, que se mobilizam para
resistir a mudanças. A estratégia do governo atual é trabalhar com temas
específicos, focados, até porque assim se discutem com maior
profundidade e qualidade as questões em jogo, como no caso das fundações
estatais de direito privado.
EQ - Por que instituir novamente a fundação estatal no serviço
público federal?
FG - Existe uma série de atividades que o governo desenvolve -
que não são seu monopólio - que são mais bem executadas por modelos
organizacionais que obedecem à dinâmica do direito privado. Este permite
que organizações públicas captem recursos e os reinvistam. O regime de
trabalho proporcionado pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) é
mais flexível. A modernização tecnológica é mais natural. Enfim, o
direito privado permite maior capacidade de adaptação das organizações
públicas ao dinamismo da realidade e do mercado de trabalho. O regime
estatutário não é o mais adequado para instituições como hospitais,
museus, centros culturais, instituições de pesquisa e várias outras que
precisam funcionar de forma mais ágil, eficiente e flexível. Basta
análise realista de como essas instituições estão hoje - no nível
federal, estadual e municipal - para se perceber a urgência de se
promoverem mudanças. Setores como hospitais e institut os de pesquisa
precisam de funcionários altamente especializados e com remuneração
condizente com suas qualificações. As fundações possibilitarão serviço
de melhor qualidade. Em mundo que funciona em tempo real, se não houver
organizações capazes de dar respostas rápidas a demandas, fica muito
difícil melhorar a gestão. Nos nossos hospitais, instituições culturais
e nos centros de ciência e tecnologia, não bastam vontade política e
recursos. A estrutura de governança delas não permite cumprirem seu
papel social.
EQ - Como será a captação de recursos para o funcionamento das
fundações?
FG - Essas instituições não farão parte do orçamento da União. Os
recursos serão repassados a elas mediante a prestação de serviços e o
cumprimento de certas metas. Além disso, podem captar recursos fora. Um
museu pode prestar para a sociedade o serviço pactuado com o Ministério
da Cultura, mas pode também ter lojinha que venda brindes, cobrar
entrada, fazer promoções e organizar espetáculos. Pode reinvestir na
modernização. Um hospital pode comprar equipamentos, desenvolver
convênios com instituições internacionais, receber doações. Hoje uma
pessoa não tem por que deixar sua fortuna pessoal para um hospital
público. O dinheiro iria para o Tesouro, que dificilmente o devolveria.
Não há incentivo para se buscarem recursos para investir na própria
instituição. Com a estrutura proposta, esse dinheiro é diretamente
aplicado na fundação, que o pode reinvestir porque tem personalidade
jurídica própria.
EQ - A definição das metas e dos serviços prestados pelas
fundações será feita via contrato de gestão?
FG - O contrato de gestão engloba a organização no seu conjunto.
Estamos discutindo nesse processo, isto é, na fase de tramitação do
projeto, a possibilidade de usarmos a expressão "contrato de serviços".
O governo precisa assegurar contrapartida pelo menos para o básico, isto
é,"o pão e a água". A geléia, a manteiga, o queijo e a fruta dependem do
desempenho da instituição, de sua capacidade de captar mais recursos,
inclusive no próprio governo.
EQ - Como será feita a contratação do quadro de pessoal nesse
modelo?
FG - Será feita por concurso público simplificado no regime
celetista. Abre-se a vaga, publica-se anúncio no jornal e na internet,
escolhem-se currículos, é realizada seleção através de provas e
entrevistas, por exemplo, e começa-se a contratar. Isso demora uns 45
dias, um mês. Se fosse feito concurso público com base no regime
estatutário, são nove meses, em média, dependendo do volume de recursos.
E freqüentemente não seleciona profissionais com o perfil desejado em
razão das dificuldades formais de se fazer um concurso. Vamos supor que
seja preciso fazer concurso público para os ministérios do PAC, plano
que é prioridade do governo; são necessários nove meses para colocar um
engenheiro na vaga. Há certos problemas que não podem esperar isso.
EQ - O regime da CLT vai permitir maior valorização do
funcionário pelo desempenho?
FG - Por que nas empresas é mais fácil encontrar avaliação por
desempenho e promoções por mérito? Porque há mais flexibilidade.
Surge-nos a oportunidade de competirmos com o mercado em melhores
condições através da oferta de remuneração adequada. O que acontece com
os salários do serviço público, em geral? Na base, ele paga bem melhor
que o mercado; no nível intermediário, razoavelmente melhor e nos níveis
mais altos, bem pior que o mercado. Numa fundação privada, o que vai
acontecer é a possibilidade de contratação guardando melhor
correspondência com a realidade das regiões do País. No mercado de
trabalho, os salários são dados por oferta e demanda. As fundações por
regime celetista permitem, também, diferenciação regional, por
desempenho, por mercado de trabalho, por demanda.
EQ - Essa flexibilidade também vai permitir que funcionários com
mau desempenho sejam demitidos?
FG - Um dos desafios da administração pública federal é
estruturar bons sistemas de avaliação de desempenho. No regime celetista,
é mais comum encontrarmos empresas com bons sistemas desse tipo. O foco
não é a possibilidade de demissão - embora isso seja previsto por nossa
legislação trabalhista, mas sempre sujeito às restrições dos acordos
coletivos e das garantias dos direitos dos trabalhadores. Na hipótese
extrema de uma pessoa ser demitida em organizações regidas pela CLT, as
coisas não se passam como no setor público, onde praticamente não se
consegue demitir por mau desempenho. Neste caso, vai ser factível. Mas
ninguém cria organização para demitir pessoas, pelo contrário. O foco é
no fortalecimento do serviço público e na geração de arranjos
organizacionais capazes de assegurar sua qualidade, eficiência e
efetividade.
EQ - Como ficam os funcionários do regime estatutário que,
eventualmente, forem trabalhar nessas fundações?
FG - Há muita gente do regime estatutário contando tempo para se
aposentar que teme perder direitos e por isso é contra tais
organizações. Não vai ser o caso. Essas pessoas que forem trabalhar nas
fundações se, depois de dois anos, não se integrarem podem retornar ao
ministério de origem. Então, não há nenhuma violação dos direitos de
quem está hoje trabalhando no regime estatutário.
EQ - Entre 1967 e 1988, existiram fundações estatais na
administração pública federal, quando foi apontada uma série de
problemas na adoção desse modelo. Qual a diferença do projeto que está
no Congresso agora?
FG - Naquela época, várias fundações contratavam pessoas para
outras instituições. Essa foi a maior distorção que aconteceu no
passado. As fundações desviaram-se da sua finalidade, prestaram-se a
outros fins. Além disso, no regime autoritário, não havia crítica. Não
havia controle democrático das instituições. Hoje, as fundações
naturalmente estão sujeitas aos mecanismos de controle do Estado
democratizado. E há mais: mecanismos de controle social estão sendo
propostos para aperfeiçoar o modelo. Isso vai contribuir para essas
fundações terem enraizamento social muito maior.