23/01/2009
Entrevista: Brasil caminha para
ser o grande produtor mundial de alimentos
O Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, participou nesta
quinta-feira (22) do programa Bom Dia Ministro. Durante a entrevista com
jornalistas, o Ministro falou sobre a safra agrícola de grãos, a
produção de alimentos orgânicos e fez um balanço das exportações do
agronegócio. O programa é produzido e coordenado pela Secretaria de
Imprensa da Presidência da República e transmitido ao vivo, via
satélite, das 8h às 9h. Leia abaixo os principais trechos editados pelo
Informativo Em Questão.
Inflação dos alimentos - "Há
um ano, quando se falava em agricultura, as perspectivas eram muito
boas, principalmente porque se tinha mercado e preço. E o setor reage
com bastante rapidez a esses fatores, como por exemplo o trigo.
Aumentamos a produção do trigo brasileiro, na última safra, em 50% - o
que é uma elevação extraordinária. Isso tudo porque havia um mercado
mundial, com bom preço, muito alto, deu-se uma linha de crédito e seguro
aos produtores. Eles imediatamente reagiram bem e plantaram bem. Então,
a agricultura tem essa facilidade. Mas este quadro que tínhamos há um
ano se alterou muito em função da crise internacional, que acabou
pegando também o setor. Em alguns setores, a agricultura brasileira é a
grande exportadora do mundo. Somos os maiores exportadores de carne, de
café e sucos, entre outros. À medida que algum país importador reduz a
quantidade - como a Rússia, em carne suína ou de frango -, isso
imediatamente causa impacto nos grandes centros produtores porque os
preços e o mercado acabam diminuindo muito."
Medidas governamentais - "O
governo propôs uma política de crédito de tal forma que todos plantassem
- e o setor agrícola plantou 100% da área do ano anterior. Mas não
plantou só porque o governo deu essas condições, mas porque ela é
diferente da área industrial, que pode dar férias coletivas, diminuir a
linha de produção. Na agricultura, o agricultor tem que continuar
plantando. Temos uma dificuldade maior. Diminuímos um pouco a
tecnologia, que representa custos. Então, a produtividade deve cair um
pouco, mas talvez 2% ou 3%, ou seja, não é muito, até seria normal. Além
disso, tivemos a seca no Paraná, que perdeu-se 30% da produção de soja;
25% da de milho; e parte da de feijão. A seca também pegou o resto do
Sul, em menor intensidade, o Uruguai e praticamente toda a Argentina,
onde a produção do trigo caiu pela metade, e a soja e o milho também
diminuíram bastante. Teve um aspecto positivo: os preços melhorarem um
pouco para os produtores brasileiros. De qualquer forma, o governo está
atento desde o início para adotar instrumentos e políticas para que
primeiro os produtores plantassem e, que agora, comercializem."
Exportação de carnes - "O
Brasil exporta carnes de maneira geral para 150 países. Claro que alguns
deles têm impacto grande, como a Rússia, o maior importador de carne. Na
medida em que o país se retrai na sua importação, isso causa impacto.
Embora a retração possa representar uma diminuição nas nossas
exportações de 5% a 10%, mas isso já causa impacto em termos de preço.
Em relação à carne de gado, não devemos ter maiores problemas. Digo
maiores, porque teremos problemas, mas são problemas que podemos
suportar. Então, acredito que esse setor continuará trabalhando
normalmente, vai passar pela crise. Já o frango, estamos num preço
limite muito baixo, mas já há um acordo com os produtores em diminuir em
10, 15 ou até 20% a produção de frango no sentido de evitar excesso de
oferta. Mas, de qualquer forma, estamos recebendo missões das Filipinas
nessa semana que, possivelmente, vão abrir com a China, possivelmente
nos próximos 30 ou 60 dias, para credenciar plantas para exportação.
Assim, estamos trabalhando com vários outros países para colocar essa
diferença, que não estamos conseguindo, em alguns países que se
retraíram nesse momento. Acredito que a questão do frango também
poderemos superar. Nossa grande preocupação está nesse momento com
suínos. Embora estejamos trabalhando com mercados como o Japão e a
China, ainda vamos demorar um pouco. O Chile também já está reabrindo,
mas de qualquer forma o mercado de carne suína vai demorar um pouco e
confesso que eu ainda não sei exatamente o que fazer, porque é uma crise
e já se apresentou como proposta financiar formação de estoques de
carnes congeladas através das grandes empresas produtoras em Santa
Catarina. Mas não sabemos se isto resolve. É uma questão que estamos
acompanhando e os representantes do setor têm dialogado constantemente
com o governo."
Políticas para o setor -
"Goiás é um estado extraordinário em termos de capacidade de produção. O
Brasil é um país muito eficiente e se coloca hoje com destaque, não só
pelo que já produz, como em termos de perspectivas futuras. É um dos
poucos países que tem terra, água, sol, gente e tecnologia. Tem uma
tecnologia extremamente avançada em agricultura tropical, com todas as
condições para dar resposta às necessidades do mundo. Claro que tínhamos
projeções de aumento de produção muito boas e uma participação muito boa
do Brasil, nesse mercado mundial, que se abria cada vez mais em termos
de consumo de produtos agrícolas. Não só por causa dos alimentos, mas
também como matéria-prima, no caso para bioenergia. Com a crise,
evidentemente, isso se arrefeceu. Mas as projeções de longo prazo
mostram que estas condições, na medida em que a crise seja ultrapassada,
o que pode demorar um, dois ou três anos, não mais do que isso, essa boa
perspectiva do Brasil retorna. Agora, existe uma política agrícola.
Podemos até, sob alguns aspectos, discordar dela."
Agronegócio - "O agronegócio
brasileiro tem tido um desenvolvimento extraordinário. O que falta,
talvez, seja uma política mais efetiva de crédito, de preço e de estudo
dessa questão do endividamento do setor rural. Quer dizer, são três
coisas que precisam ser, evidentemente, equacionadas. Estamos hoje com
um grupo de estudos, entre o Banco do Brasil, os ministérios da Fazenda
- que sempre tem de participar desse tipo de discussão, para que depois
se possa viabilizar, já que isso sempre envolve custos e orçamento do
governo - e o da Agricultura. Também participam alguns técnicos de
representações de produtores para ver que fórmula podemos utilizar para
resolver essa questão do endividamento que já existe e evitar que
futuros endividamentos ocorram, para que se tenha uma política de preço
de sustentação, onde efetivamente o agricultor possa ter o mínimo de
renda e possa continuar a se desenvolver e a continuar produzindo.
Então, acho que essas condições todas de alteração e de melhoria da
política agrícola estão em estudo."
Agenda - "Temos uma agenda
hoje de dez pontos que consideramos importantes. Começando desde a
questão de fertilizantes, que tem sido extremante vulnerável na
agricultura brasileira porque 75% dos fertilizantes são importados. Um
país que é grande produtor não pode ficar dependendo da importação com
uma variação de preço excessivamente alto. Isso tem impacto no custo de
produção bastante alto, já que no mundo são poucos os países que dominam
as minas e as jazidas desses fertilizantes, assim como no Brasil são
três empresas que controlam a comercialização. Essa é uma questão
estrutural e tem que ser enfrentada. Na defesa sanitária, animal e
vegetal, que eu acho que progredimos muito nesses últimos dois anos,
também teremos que avançar muito. Assim, temos toda a pesquisa,
evidentemente, como fundamental; a tecnologia, a adaptação de novas
variedades geneticamente mais produtivas, mais resistentes. A questão
das doenças e os impactos delas, como no caso da soja, a ferrugem. A
questão da infra-estrutura e logística é um problema seriíssimo. Você
não pode trazer a produção do Mato Grosso para os portos de Santos e
Paranaguá. O custo é muito elevado. Temos que encontrar uma outra saída.
Não é só questão de política agrícola. Há uma série de outras questões,
uma outra agenda que temos que estruturar já que o Brasil caminha pra
ser o grande produtor agrícola mundial, o grande fornecedor de alimentos
para o mundo."
Orgânicos - "Eles foram
regulamentados há muito pouco tempo, no ano passado. Orgânico é um
mercado bom e que cresce não só dentro do Brasil, mas no mundo todo. A
regulamentação foi fundamental porque ela estabelece os padrões de
produção e dá garantia para o consumidor saber o está comprando como
produto orgânico. Dá também garantia para quem produz porque pode
certificar o produto. Essa estrutura, entre você estabelecer essas
regras todas, cria certificadoras. Passar a certificação, esse é um
processo que talvez ainda demore um pouco. Mas acho que estamos
caminhando muito rapidamente para isso. O estado que hoje é líder nessa
produção e que avançou muito é o Paraná; mesmo no Distrito Federal tem
uma associação muito boa, muito forte. O consumidor quer ver e quer ter
a certeza da origem do que ele está comprando é um produto orgânico. O
produtor evidentemente quer isso para mostrar que está produzindo um bom
produto. Como isso, tem-se um preço diferenciado, classe cada vez maior
que deseja esse produto. Acho que esse é um grande mercado."
Mercado de trabalho -
"Praticamente todas as reservas que o País tem, e que são extremamente
importantes nesse momento de crise, foram geradas pela agricultura. É o
único setor que, além de pagar o déficit das demais áreas de exportação,
é o que gera 100% de saldo na balança comercial brasileira. Em 2008,
fechamos as exportações do setor agrícola em mais de US$ 70 bilhões;
importamos menos de US$ 10 bilhões e geramos um saldo positivo de US$ 60
bilhões. É recorde, é um dado extraordinário. Pagamos o déficit do setor
industrial e do de serviços e ainda tivemos o saldo líquido de mais de
US$ 40 bilhões, que foi o saldo da balança comercial brasileira. É bom
ressaltar essa importância que tem o setor agrícola para a economia.
Efetivamente, foi o segundo setor que mais demitiu. Foram 143 mil
trabalhadores. Agora, quando você decompõe e analisa isso, o setor
álcool açucareiro sozinho demitiu quase 80 mil. Ou seja, a grande
demissão está concentrada em um único setor e muito em São Paulo e em
Minas Gerais. Então, foram pequenas as demissões nos demais setores e no
resto do Brasil. Quando o governo viu esses dados, passou a estudá-lo
junto com esse setor para ver o que pode ser feito pra evitar que esse
processo se agrave."
Fonte Informativo Em Questão