28/05/2007
Entrevista com Ian
Bremmer: O BRASIL É A MELHOR
APOSTA
A estabilidade torna o investimento no país mais seguro que na China e
na Índia, diz um dos consultores políticos preferidos de Wall Street
Entrevista com IAN BREMMER para a Revista ÉPOCA,
Edição 470
Em 1998, Ian Bremmer Tinha US$ 25 mil no bolso e um ph.D. em Ciência
Política quando partiu para a conquista de Wall Street. Fundou a empresa
de consultoria Eurásia com o objetivo de convencer o mercado financeiro
de que a política importa- e muito – para o mundo dos negócios. Veio o
11 de setembro de 2001 e Bremmer ganhou sua aposta. Hoje, a Eurásia tem
mais de 200 multinacionais como clientes e especialistas contratados em
65 países. O negócio de Bremmer é identificar riscos políticos para a
economia global. Em 2006, ele publicou The Curve – A New Way to
Understand Why Nations Rise and Fall (A Curva) – Um Novo Jeito de
Entender Por Que as Nações Crescem e Declinam), selecionado pela revista
britânica The Economist como um dos melhores livros do ano.
Bremmer está entusiasmado com o Brasil. Ele afirma que o consenso em
relação à economia de mercado elevará o país a um novo patamar.
ÉPOCA – O senhor diz que o Brasil, no longo prazo, é uma aposta mais
segura entre os quatro países emergentes conhecidos como BRIC (Brasil,
Rússia, Índia e China). O que o faz acreditar nisso?
Ian Bremmer – É claro que, no curto prazo, veremos índices de
crescimento econômico maiores na China, na Índia e na Rússia que no
Brasil. Mas, no longo prazo, há coisas extremamente positivas no Brasil,
como a ausência de instabilidades, a consolidação das forças políticas,
a capacidade de ir adiante com as reformas. Há uma crescente
convergência entre esquerda e direita no país sobre a necessidade de
conduzir reformas no sistema de aposentadorias e nas finanças públicas.
Isso está sendo enfrentado de forma gradual, mas ao longo do tempo as
reformas ocorrerão. Nada disso vai criar taxas recordes de crescimento
da noite para o dia. Numa perspectiva de longo prazo, poderemos ter
muita esperança e expectativa de coisas positivas em relação ao Brasil.
ÉPOCA – O senhor demonstra otimismo em relação ao futuro das reformas no
Brasil, que não é compartilhado por muitos analistas. Por quê?
Bremmer - Sei que há muitos analistas de mercado que receberam a
criação de um fórum nacional para discutir a reforma da Previdência como
um sinal de inação. Mas há sinais consistentes do governo de um real
interesse em fazer, até o fim do ano, uma proposta de reforma que
introduza uma idade mínima e reduza a diferença de exigências feitas a
homens e mulheres para a aposentadoria. O PT também está consciente de
que precisa continuar a fazer ajustes. Se você olhar o PAC, de uma
perspectiva fiscal, a medida mais importante, dados os significativos
aumentos nos salários do Judiciário e do Legislativo brasileiro, foi
estabelecer um teto para o crescimento dos gastos com pessoal por dez
anos equivalente à inflação mais 1,5%. Haverá negociação no Congresso,
mas o país, gradualmente, está se movendo na direção correta.
ÉPOCA – O presidente
Lula, com seus altos índices de aprovação popular, não deveria ser mais
ambicioso e usar seu capital político para fazer deslanchar as
reformas e acelerar
o crescimento econômico?
Bremmer – Não
há dúvida de que Lula poderia ter uma estratégia mais agressiva em sua
agenda de reformas. Mas temos de ser realistas. Quando você tem altos
índices de popularidade, como Lula, com quase 70% de aprovação, você não
se incomoda em fazer nada. Há um nível de complacência que advém também
das condições econômicas internacionais extremamente favoráveis. Lula
não está longe de cumprir a promessa de fazer a economia crescer a 5%.
Neste ano, a economia brasileira deverá crescer mais de 4%. Os
assessores do presidente devem estar se perguntando por que deveriam
fazer reformas duras e dolorosas se não há dificuldades econômicas no
horizonte. Uma reforma nas aposentadorias é difícil em qualquer lugar
do mundo. No Brasil, é mais ainda, porque os gastos em Previdência e
saúde são temas constitucionais. Mesmo nesse contexto de aprovação, Lula
deu o sinal verde a sua equipe econômica para esboçar uma série de
propostas ambiciosas para uma reforma fiscal de longo prazo.
ÉPOCA – Em
comparação com os outros países do bloco Bric, quais as principais
vantagens do Brasil? E nossas fraquezas?
Bremmer – Além de dar passos graduais na direção das reformas, o
Brasil tem a vantagem de ser a Arábia Saudita do etanol. Tem a terra e
pode criar uma extraordinária demanda por combustíveis alternativos, um
mercado em crescimento. E pode fazer isso sem arruinar o meio ambiente
como Indonésia e outros países do Sudeste Asiático teriam de fazer para
produzir óleo a partir da palmeira. A principal fraqueza do Brasil é que
não há ainda no país muito empreendedorismo. É muito difícil começar
novos negócios. O sistema tributário é punitivo. Se você quiser criar
uma classe média robusta no longo prazo, isso será um problema.
ÉPOCA – Vamos supor
que o senhor tenha um cliente com a opção de fazer um investimento no
Brasil, na China ou na Índia. O que o senhor diz a ele?
Bremmer – Costumamos olhar os riscos políticos, aos quais os
mercados não dão a devida atenção. O que nos torna otimistas em relação
ao futuro do Brasil é o consenso em relação à economia de mercado. A
China é uma extraordinária história de crescimento econômico. Você tem
de investir lá. Mas, no longo prazo, os riscos políticos são muito
altos. A crescente globalização da China faz sua economia crescer, mas
aumenta também a instabilidade política. Quanto mais a China se
globalizar, mais desafios políticos serão colocados ao autoritário
sistema comunista chinês. A instabilidade social crescerá e gerará mais
dificuldades. Se o governo da China for forçado a escolher entre
abertura econômica e estabilidade política, escolherá a estabilidade
política.
ÉPOCA – E a Índia?
Bremmer – A Índia é um tremendo lugar para investir em novas
tecnologias, como nanotecnologia ou engenharia genética. A Índia tem uma
economia extraordinária, talvez a melhor do mundo entre os países
emergentes. Mas para 5 milhões de pessoas. E é um país de mais de 1
bilhão. Em termos de educação, infra-estrutura e burocracia, a Índia
ainda tem um caminho longo a percorrer. O crescimento é grande, a classe
média está prosperando, mas não é um lugar fácil. Hás uma extraordinária
descentralização de estrutura política, que torna difícil investir, a
não ser nos setores mais novos.
ÉPOCA – O senhor
afirmou num artigo publicado no ano passado que a Rússia não deveria ser
colocada na mesma categoria de Brasil, China e Índia. Por quê?^
Bremmer – A Rússia está num caminho muito diferente. A Rússia se
parece mais com a Arábia Saudita ou a Venezuela que o Brasil e a Índia.
É mais um Estado produtor de petróleo que um mercado emergente. A Rússia
é dirigida por um fato: eles podem tirar dinheiro do chão. Eles não
precisam de condições favoráveis para atrair investidores estrangeiros,
não precisam de abertura nem de globalização para manter a estabilidade
política. Se você está em um setor que pareça estratégico, o império da
lei simplesmente não existe. Isso cria muitos problemas.
ÉPOCA – Num artigo
sobre a reeleição do presidente Lula, o senado escreveu que Wall Street
não passou a gostar mais dele desde a primeira vez que ele foi eleito.
Mas os investidores também não o temiam mais – e era isso que importava.
Qual é a percepção hoje do sistema financeiro internacional sobre Lula?
Bremmer – O Brasil está se tornado mais ou menos como os Estados
Unidos – nas coisas boas e nas coisas ruins. Cinco anos atrás, quando o
Brasil estava se encaminhando para as eleições presidenciais, muitos
diziam que, se Lula ganhasse, faria nacionalizações e daria um calote no
pagamento da dívida. No ano passado, estive em São Paulo e Brasília um
pouco antes das eleições e encontrei muito executivos do sistema
financeiro. Todos me disseram que, se Lula ganhasse, o Brasil teria
quatro anos a mais de mediocridade. Do meu ponto de vista, quatro anos a
mais de mediocridade me soam como os Estados Unidos. É isso que os
americanos dizem a respeito dos candidatos presidenciais. A política
está se tornando um ato rotineiro, banal. Portanto, Lula não se tornou
mais popular em Wall Street, mas o sistema se consolidou. A estabilidade
política cresceu. Isso ajuda muito.
ÉPOCA – Essa
estabilidade política não foi facilitada pelas condições favoráveis da
economia mundial? Não pode ser revertida por uma mudança nos mercados
globais?
Bremmer – A curva J é a idéia de que você pode explicar a relação
entre a estabilidade política a relação entre a estabilidade política de
um país e sua abertura internacional – para capitais, migração e
comunicações – e interna. Se você colocar a abertura no eixo horizontal
e estabilidade no eixo vertical, o resultado será uma curva J. Do lado
esquerdo da curva J, há alguns países estáveis porque são fechados, como
Coréia do Norte ou Cuba. Do lado direito, outros são estáveis porque são
abertos, como EUA, Reino Unido ou França; Os países podem se movimentar
para qualquer um dos lados da curva. À medida que a China se torna mais
globalizada e há mais desafios ao sistema político autoritário, eles se
movem na direção da esquerda. Isso é o que me preocupa na China.
ÉPOCA – Como está o
Brasil na curva J?
Bremmer – Como a Índia, o Brasil está no lado direito da
curva e continua a se movimentar para cima. Isso conta um pouco da
história do Brasil. O país estava consideravelmente mais baixo no lado
direito da curva quando Lula venceu pela primeira vez. Cada vez mais,
vemos que não é a instabilidade política que dirige os resultados
econômicos no Brasil. Não é quem ganha a eleição. Mas sim a
micropolítica, que trata de questões regulatórias ou da política
tributária.