08/02/2010
Dilma rebate FHC e compara os
dois governos
A ministra-chefe da Casa Civil e pré-candidata do PT à presidência da
República, Dilma Rousseff, defendeu, neste domingo, a estratégia
eleitoral de comparar as gestões entre os governo Lula e do governo
anterior. Ela rebateu de forma enfática o artigo do ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, publicado na edição deste domingo do Globo,
em que ele afirmou que "eleições não se ganham com o retrovisor".
- Comparar não é ficar olhando para o retrovisor. Pelo contrário. É
discutir que caminho eu vou seguir. Para que lado eu vou. E por que o
povo tem que discutir isso? Porque é importante saber se nós vamos fazer
obras de saneamento ou não - disse Dilma, ao participar do Encontro
Nacional da Juventude do PT.
No artigo, o ex-presidente Fernando
Henrique acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "inventar
inimigos" e "enunciar inverdades" e desafiou o "lulismo" a fazer
comparações "sem mentir" e "sem descontextualizar". A ministra Dilma
disse não ver problemas nas comparações e ressaltou que o governo Lula é
muito bem sucedido. Para ela, a comparação é fundamental para que se
escolha um caminho.
" Comparar não é ficar olhando para o retrovisor. Pelo contrário. É
discutir que caminho eu vou seguir "
- A comparação, quando se trata da gente escolher caminhos, é sempre
boa. Porque você vai discutir: "eu vou seguir aquele caminho ou vou
seguir aquele outro caminho". Para saber qual dos caminhos seguir, eu
olho e comparo. Não há como dizer que o governo do presidente Lula, em
qualquer comparação e em qualquer período anterior, não seja um governo
muito bem sucedido _ disse Dilma.
Ela citou algumas áreas de atuação do
governo Lula em relação as gestões anteriores. Lembrou que, de 1999 até
2003 foram construídas 140 escolas técnicas, número igual ao do governo
Lula, e que, segundo ele, terminará com 214 escolas técnicas. Ao citar
as obras de saneamento, Dilma acrescentou que antes de 2003 havia sido
feito muito pouco. Também lembrou o déficit habitacional e defendeu o
subsídio para a construção de casas populares.
- Tem que fazer o que fizemos no "Minha Casa, Minha Vida", que era
considerado o cúmulo do "dinossaurismo": subsídio. O governo federal
botar a mão no bolso, tirar dinheiro do orçamento e pagar uma parte das
casas para população até três salários mínimos. Aí sim, as pessoas têm
opção e não vão para a beira do córrego e do fundo do vale _ argumentou.
Ela também citou como exemplo de
comparação a reportagem do GLOBO, publicada no caderno de Economia neste
domingo, que revelou que, pela primeira vez na história, a classe C do
Brasil passou a representar a maior fatia da renda nacional.
- Comparar, sim, uai. Se não comparar, fica difícil. Vamos discutir quem
fez o que, e quem fará o que. Nós não temos problema nenhum com
comparação. E sabe por quê? Porque estamos vendo os dados _ disse Dilma,
para, em seguida, ressaltar: _ Não vai ser possível a gente não comparar
situações. Porque o Brasil deu um salto. Antes, a gente vivia de pires
na mão falar com o "sub, do sub, do sub" no Fundo Monetário
Internacional.
Ela ressaltou ainda a estabilidade
econômica durante a gestão do governo Lula. Para ela, esse fator foi
fundamental para o Brasil superar a recente crise financeira
internacional, situação diferente da que o país viveu em governos
anteriores, segundo ela.
- O governo pediu US$ 14 bilhões (emprestados ao FMI) porque só tinha
US$ 16 bilhões de reserva. Tinha atrelada a sua dívida interna ao dólar.
Cada vez que havia uma crise internacional, e uma desvalorização, a
dívida das empresas e do governo, triplicava, duplicava ou se
multiplicava na proporção da desvalorização. Diante de cada crise, o
governo quebrava. Ele era parte do problema. Nós não vamos comparar que
fomos parte da solução? - sugeriu a pré-candidata petista.
Segundo ela, o governo Lula pôs os
bancos públicos investindo e financiando quando o crédito havia acabado.
Ela lembrou ainda que o governo ajudou o setor privado a não ter uma
queda acentuada. E citou o fato de iniciativas governamentais ter
segurado o setor automobilístico e a construção civil. A ministra disse
que o programa "Minha Casa e Minha Vida", para a construção de um milhão
de moradias, teve o objetivo de solucionar o déficit habitacional, mas
também o de impulsionar o setor.
- Para resolver o problema do déficit, mas também para combater a crise,
e não deixar que um setor tão importante como o empresário privado da
construção civil quebrasse. Então, eu não acredito que seja simplesmente
uma questão de comparação. É uma questão de opção pelo caminho que o
Brasil vai percorrer a partir de agora - observou.
Ela contestou o ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, que afirmou que o presidente Lula tenta
desconstruir o inimigo:
- Você pode comparar o que foi feito no governo anterior. Nós
construímos um caminho novo para o Brasil. Não estou desmerecendo
ninguém. O que estou falando é que aquele caminho não é o melhor.
Para o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, também
presente ao evento, o PT sempre fez comparações com o PSDB. Ele
alfinetou o ex-presidente tucano.
- Toda vez que o ex-presidente Fernando Henrique fala, o governo cresce
na sua aprovação e a ministra Dilma cresce nas pesquisas_ provocou
Padilha.
Num discurso para cerca de 400
militantes da Juventude do PT, Dilma insistiu nas comparações. Muito
descontraída, chegou a gritar com os militantes palavras de ordem. Ela
foi aclamada como "presidenta" pelos petistas, aos gritos de "Olê, Olê,
Olê, Olá, Dilma, Dilma" ou de "O povo decidiu: Dilma presidente do
Brasil'. O presidente do PT, o ex-senador José Eduardo Dutra, negou que
o evento fosse um ato de campanha eleitoral. Em sua fala, ela ressaltou
a projeção de que o Brasil será a quinta maior potência do mundo.
- Mas só podemos ser a quinta potência se os 190 milhões de brasileiros
tiverem saúde, educação, segurança e participarem dos ganhos desse
desenvolvimento. Não podemos aceitar a visão passada de desenvolvimento
econômico, em que o povo brasileiro não tinha acesso a esse
desenvolvimento - sentenciou.
" Toda vez que o ex-presidente Fernando Henrique fala, o governo cresce
na sua aprovação e a ministra Dilma cresce nas pesquisas "
Ainda na entrevista, Dilma contestou
as críticas da oposição de que o PT quer rasgar a "Carta aos
Brasileiros" e os compromissos com a estabilidade econômica, numa
referência ao texto assinado por Lula na campanha de 2002.
- Nós implantamos a "Carta aos Brasileiros". Ela já está bem implantada.
Por isso que a gente não precisa dela. Ela está aí com US$ 241 bilhões
de reservas. Ela está aí no controle da inflação do nosso período. Ela
está na política fiscal mais responsável que houve até agora. Porque
mesmo durante a crise temos o menor déficit fiscal e nominal do mundo.
Não fomos nós, hoje, que falamos que tem que acabar com os juros, mudar
o câmbio e resolver o problema da inflação diferentemente, além de
acabar com o PAC. Não foi ninguém do PT. Não fomos nós - rebateu, numa
citação indireta a recente declaração do presidente do PSDB, o senador
Sérgio Guerra (PE).
Ela ainda ironizou a oposição, a
citar que nem mesmo no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, há
esse tipo de crítica ao governo brasileiro.
- E aí vocês me desculpem, mas o pessoal está um pouquinho atrasado. Nem
em Davos a gente recebe mais essa crítica. Em Davos a gente recebe um
prêmio de estadista internacional. Por que será? - provocou, Dilma,
arrancando sorrisos dos militantes petistas.
Ministra defende aliança com o
PMDB - Momentos antes de fazer seu discurso no encontro da Juventude
do PT, a ministra negou que haja constrangimento provocado pelas
declarações feitas pelo deputado e ex-ministro Ciro Gomes (PSB-CE). Ciro
criticou o que chamou de hegemonia moral da aliança PT-PMDB, chegando a
citar a existência de um roçado de escândalos.
_ Nós achamos muito importante discutir essa questão da hegemonia
intelectual e moral. Toda hegemonia intelectual e moral é baseada num
projeto de aliança social. Acho que o nosso governo construiu um projeto
com um arco de alianças social.
Ela ainda rebateu indiretamente Ciro
Gomes, que chegou a afirmar que o PT trata aliados não fisiológicos como
"chiqueiro de ovelhas", numa reação a tentativa do partido de retirar a
sua candidatura presidencial.
_ Acho Ciro Gomes um dos políticos mais qualificados do país. Agora, nem
por isso, vou deixar de acrescentar o fato de que nós temos uma aliança
qualificada e por isso, a nossa relação com os partidos da nossa base
também tem que ser uma relação qualificada. Nós respeitamos o PMDB, PC
do B, o PSB, PTB, PP, PR, PRB, PSC e PDT.
Um dia depois da convenção do PMDB
que reconduziu o deputado Michel Temer (SP) para a presidência do
partido, Dilma disse que a legenda era confiável.
_ O PMDB é absolutamente confiável. E não só isso. Não tem nada de
inconfiável nisso. Porque a gente incentiva que todos os integrantes do
governo tomem para sim as políticas sociais do governo. Aí não é só o
PMDB _ disse Dilma.
Fonte: O Globo