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26/03/2007
ENTREVISTA 
A ENERGIA DO BRASIL

por Maurício Dias
 

         

          Notícia de que os Estados Unidos não retirariam a taxação sobre a importação do álcool brasileiro chegou antes do desembarque de George W. Bush no Brasil. Por isso, às vésperas da chegada do presidente americano, José Sergio Gabrielle, presidente da Petrobras, descartou a hipótese de que o País poderia firmar grandes contratos de exportação de álcool para os EUA.

Era um recado e estava em sintonia com o presidente Lula. Nenhum sacrifício nisso. Mas, também, não é exatamente o comportamento rotineiro dos presidentes da estatal que serve a dois senhores, os acionistas privados e o governo, sócio majoritário com 56% das ações.

“Uma empresa desse tamanho não pode se afastar da ação política. Qualquer decisão tem de levar em conta o efeito na economia brasileira”, diz Gabrielli.

A Petrobras é mesmo um gigante. É o que ele afirma, também, nessa entrevista a CartaCapital, onde traça um rápido e didático perfil do funcionamento da empresa no governo Lula. Fala também do conflito do gás, provocado pela Bolívia, q do poderio estatal que, em 2006, alcançou um lucro recorde de 25,9 bilhões de reais e tornou-se a mais lucrativa empresa de capital da América Latina. É mias um número espetacular, após outro feito recente e notável: a auto-suficiência na produção de petróleo. Isso significa quase 2 milhões de barris por dia.

A cada ano que passa os números da Petrobras estimulam mais a importância que ela tem para o Brasil. Uma gestão pode ser melhor do que outra, mas ninguém é dono do sucesso da companhia. Sai governo entra governo, ela é continuidade de um movimento social desfechado há mais de 50 anos que levou milhares de brasileiros às ruas. Exigiam que ela nascesse e botasse sob controle a exploração e a produção de petróleo.

Com investimentos estimados em 87 bilhões de dólares até 2011, a Petrobras consolida passo a passo o perfil de “uma empresa de energia”, como gosta de acentuar Gabrielli. Nesse sentido, ele manda um aviso aos navegantes (na verdade para a venezuelana PDVSA e para a mexicana Pemex): “Em 2015 seremos a empresa de energia líder na América Latina”. As fichas estão na mesa.

 

CartaCapital: O que sentiu o professor quando assumiu a presidência da Petrobras? Medo?

José Sergio Gabrielli: O medo teria surgido, lá atrás, quando aceitei a Diretoria Financeira, por onde passei inicialmente. Naquele momento eu diria que senti um frio na barriga, mas acreditei que o desafio seria superado. Avaliei o que era fundamental no primeiro momento. Conquistar a confiança do mercado.

CC: E acabar com a desconfiança no governo.

JSG: Essa era uma desconfiança básica. Os dois primeiros anos foram assim, muito tensos, no contato direto, pessoal, com todos os agentes de mercado. Fiz centenas de reuniões. Literalmente, centenas.

 

CC: Quem o “lançou” na Universidade da Bahia?

JSG: Sou militante do PT há muitos anos. O presidente Lula me convidou. Na transição cuidei de todas as estatais. Quando o José Eduardo Dutra se afastou, fui convidado. Foi quase como uma substituição interna. Não houve turbulência.

 

CC: Quais riscos o cargo envolve?

JSG: Existem vários riscos. Uma coisa importante, que dizia minha mãe-de-santo: “Você nunca deve tentar tirar os dois pés do chão. Se tirar cai. Mantenha pelo menos um pé no chão quando tirar o outro para sonhar e vislumbrar coisas mais amplas”. Em razão do tamanho da empresa, da complexidade e do tamanho das decisões, é fácil sair do chão. O segundo elemento de risco importante é que a Petrobras trata com públicos distintos, com interesses muito díspares. É uma empresa controlada pelo governo, mas, predominantemente privada.

 

CC: O petróleo é nosso, a Petrobras não é mais?

JSG: A Petrobras é nossa, porque o governo tem 56% dos votos. Controla a empresa e mantém a indicação de cinco dos nove membros do Conselho de Administração. A empresa tem 67% de capital flutuante na Bolsa, sendo 40% em Nova York. Há aí uma dualidade importante, que é a de tratar com os acionistas privados e com o acionista controlador, que é o governo.

 

CC:Há diferenças entre a Petrobras do governo FHC  e a do governo Lula?

JSG: Do ponto de vista da exploração e produção eu diria que existem duas grandes mudanças. Fizemos a retomada da expansão da atividade exploratória da Petrobras. Passamos a ter uma atitude muito mais ativa nos leilões da ANP, adquirindo áreas para garantir a perspectiva futura da companhia. Foi uma mudança extremamente importante, de longo prazo. Modificamos a política em relação aos campos em terra e os campos maduros, campos a ser abandonados. Intensificamos a atividade de manutenção e o nível de produção desses campos. Estamos adotando tecnologias novas e investindo mais nessa área. Com isso, mantemos não só a produção por mais tempo, como a perspectiva de atingir recordes de extração em campos com mais de 40 anos de atividade produtiva.

 

CC: O governo Fernando Henrique não tentou privatizar a empresa?

JSG: Houve uma venda de ações da Petrobras em 2000. O governo vendeu papéis da parcela que detinha. Eu diria que a preparavam, sim, para ser fatiada. A idéia era ter várias áreas da empresa que seriam desmembráveis e poderiam, posteriormente, ser privatizadas. Uma das coisas que fizemos foi consolidar a corporação como um todo. De novo fortalecemos o conjunto.

 

CC: A auto-confiança foi um projeto de longo prazo que beneficiou o governo Lula?

JSG: O governo Lula agiu para garantir isso. A política adotada em relação aos grandes projetos, particularmente a P43, a P48 e a P50, extremamente importante para aumentar a produção e atingir a auto-suficiência, estava atrasada mais de dois anos. A construção das plataformas, todas produzidas fora do Brasil, estava parada e botamos em produção. Foram contratadas antes de nós. Havia problemas enormes com ela. Atrasos com os fornecedores, conflitos. Outra mudança do governo Lula foi o aumento do conteúdo nacional das plataformas. Nas plataformas P51 e P52 exigimos que fosse de 65%.

 

CC: A propósito, em que pé a promessa do presidente Lula deve trocar a encomenda de navios no exterior por encomendas à indústria nacional?

JSG: Nessa parte de logística, fizemos um programa de renovação da frota de navios. Vamos fazer 42 no Brasil. Já contratamos 26. Não havia a definição do que seria feito no Brasil. Isso significa mais de 2 bilhões de dólares até 2011. Além disso, encontramos o setor de energia no caos. Havia contratos extremamente danosos para a Petrobras. Resolvemos a maioria dos problemas das térmicas. O problema era a natureza dos contratos. As térmicas não tinham risco. Todo o risco era assumido pela Petrobras e toda a diferença de custo que tinha era bancado também pela empresa.

 

 CC: Mas elas estavam desativadas.

JSG: Desativados ou não nós pagávamos as contingências. Tem custo. Como era contratação com terceiros, havia um horizonte de pagamento com prejuízos enormes a ser realizado. Entramos em negociação direta com as térmicas e as adquirimos. Com isso, assumimos um prejuízo menor do que o projetado. Saneamos o nosso portfólio de térmicas. Temos quase mil megawatts de capacidade de produção elétrica. Vendemos em contrato 2 mil. Não vendemos tudo porque tínhamos outro problema, que era a montagem da infra-estrutura para o gás.

 

CC:Bem, chegamos ao imbróglio com a Bolívia.

JSG: Vamos chegar lá. Pra o gás, diferentemente do petróleo, o transporte é absolutamente fundamental. Sem gasoduto não há gás. Temos um programa fortíssimo de construção de gasoduto. Mias de 4.600 quilômetros serão construídos até 2009. Hoje a rede está em torno de 6 mil. Vamos para quase 10 mil quilômetros. Significa um investimento de, aproximadamente, 28 bilhões de dólares. Tivemos grande sucesso exploratório ao descobrir volumes de gás no Espírito Santo, em Santos e na Bahia. Há expectativa de que a produção de gás cresça 55 milhões de metros cúbicos até 2011. Hoje o mercado brasileiro todo é de 42 milhões, sendo 24 milhões importados da Bolívia.

 

CC: Pior para a Bolívia. É isso?

JSG: Não. Não quer dizer que a gente vá deixar de trazer gás da Bolívia. Vamos continuar a trazer. Nossa expectativa é a de que continuaremos importando 30 milhões de metros cúbicos de lá. A demanda no Brasil vai crescer e deve chegar a 121 milhões de metros cúbicos.

 

CC: O episódio com a Bolívia teve algum impacto no desempenho da empresa?

JSG: Não. A Bolívia é vista pelo mercado como uma coisa muito pequena para a Petrobras. Ela é importante para o Brasil porque 50% do gás que consumimos vem de lá. Para o mercado de gás brasileiro a Bolívia tem um papel muito importante. Para os ativos da Petrobras, para o lucro da empresa, o efeito é muito pequeno.

 

CC: Mas não teve um impacto no lucro da empresa, conforme noticiou O Globo?

JSG: Não. Objetivamente eu não renegociei contratos. Estamos reconhecendo que o produto que compramos da Bolívia tem um conteúdo diferente do que estamos pagando. Nós não separamos esse conteúdo diferente do que estamos pagando. Nós não separamos esse conteúdo. Estou recebendo deles metano, propano, butano, GLP e “C5+” (gás com cinco moléculas de carbono a mais, capaz de produzir gasolina mais pura). E por quê? Porque a Bolívia e o Brasil não separam isso.

 

CC: A reivindicação da Bolívia tem, então, uma base técnica?

JSG: É preciso reconhecer, antes de tudo, que a Bolívia tomou uma série de decisões internas legitimas. Temos um contrato internacional que nunca foi afetado e foi sempre respeitado por nós e por eles. Dentro desse contrato existe a possibilidade de discutir preço. A Bolívia solicitou que o preço fosse alterado e não concordamos. Acontece que compramos deles um produto estimado em um número de quilocalorias por metro cúbico. No entanto, o produto tem mais quilocalorias do que o estabelecimento. É mais rico do que pagamos. Eles exigiam que o Brasil reconhecesse isso.

 

CC: Mas a Bolívia queria também aumentar o preço do gás no contrato, não?

JSG: Queria. O gás não é um preço internacional. Depende do preço do combustível alternativo. Não tem preço internacional porque depende de gasoduto para transporte. Gasoduto é fixo. Não dá para levar o gás da Bolívia para a Suíça.

 

CC: E se o governo brasileiro, por razões políticas, pressionasse para que a empresa aceitasse subir o preço? Como a Petrobras reage às pressões?

JSG: Uma empresa do tamanho da Petrobras não pode se afastar da ação política. Fosse uma empresa privada também seria assim. E não só no Brasil como em qualquer lugar no mundo. Ou você acha que, por exemplo, na Coca Cola não há influência pública? A Petrobras é muito grande para a economia brasileira. Então, qualquer decisão dela tem de levar em conta o efeito na economia. Ela hoje representa entre 8% e 10% do PIB brasileiro. Esse porcentual ninguém sabe exatamente qual é.

 

CC: O governo, majoritário, não faz o que quer?

JSG: Nenhum governo faz o que quer na Petrobras. A empresa é diferente do governo. O orçamento é separado. Os membros do Conselho de Administração, com exceção do presidente, que não é independente, estão lá porque são escolhidos na Assembléia Geral e respondem como pessoas físicas perante a Comissão de Valores Mobiliários e perante os acionistas.

 

CC: Quem cuida dos interesses dos acionistas privados?

JSG: O Conselho de Administração tem nove integrantes. O governo tem cinco e a iniciativa provada, quatro.

 

CC: Aí o governo ganha todas.

JSG: Mas o governo te, 56% dos votos.

 

CC: Existe algum outro objetivo, similar ao da auto-suficincia, que a Petrobras ainda busca?

 

JSG: em 2015 será a empresa de energia líder da América Latina. Disputamos com a PDVSA e a Pemex. Queremos ser uma empresa de energia.Muito mais do que uma empresa de petróleo.